Em razão dos 120 anos que completaria em 2025, o atemporal Érico Veríssimo tem sido celebrado em eventos como a 52ª Feira do Livro de Santa Maria, que recentemente promoveu um bate-papo entre a escritora e roteirista Leticia Wierzchowski e os atores Thiago Lacerda e Rafa Sieg sobre a trajetória literária e pessoal do autor gaúcho. A conversa, que aconteceu no Theatro Treze de Maio, teve direito à leitura de trechos da obra e permeou o legado do autor além do tempo, considerando um Érico que se faz presente até hoje, seja nas livrarias, nas escolas ou na Netflix. E a Uma Revista traz um olhar sobre o contato das novas gerações com esse criador cujas criaturas são histórias de famílias, de afetos, conflitos e pertencimento.



Fotos: Ronald Mendes
Após o evento, Leticia e Thiago falaram à Uma Revista sobre a adaptação cinematográfica que traz personagens como Ana Terra, Bibiana e Capitão Rodrigo para as telas.
“Foi um grande desafio, mas o maior aprendizado que tive na vida”, relata Leticia, que assinou o roteiro ao lado do escritor Tabajara Ruas para o longa-metragem de Jayme Monjardim. “O processo de adaptação do romance me ensinou tanto a escrever literatura quanto roteiros, pois dissecamos uma das maiores obras da nossa literatura.”
“Foi uma experiência inesquecível”, descreve Thiago, que viveu o Capitão Rodrigo. “Fico muito feliz por as pessoas terem gostado tanto do filme, especialmente do Capitão Rodrigo, que era um trabalho pessoalmente muito importante para mim.” Além do herói fictício no currículo, o ator também coleciona personagens épicos reais, como o Giuseppe Garibaldi da minissérie A Casa das Sete Mulheres e, agora, o próprio Bento Gonçalves do longa Porongos, ainda em produção. Ele acrescenta que sempre gostou do processo de gravar tramas históricas: “Acho essa dedicação que eu tenho aos personagens históricos muito importante na conexão com o público”.
Atualmente, O Tempo e o Vento está disponível na Netflix.
Como a obra de Érico Veríssimo deve dialogar com as novas gerações?
Para responder a essa pergunta, convidamos Maria do Socorro Pereira de Assis, Prof.ª Dra. em Teoria da Literatura, com experiência no ensino de Língua e Literatura, Crítica e Poesia, Literatura Clássica e Teoria Narrativa da Literatura. Confira:
“O valor de uma obra literária está em sua capacidade de permanência, em seu potencial para atravessar épocas e distâncias. Isto significa que a obra vai dialogar com contextos históricos, situações, sociedades e públicos os mais diferentes. Ela será, portanto, recebida e reinterpretada num processo contínuo. Podemos afirmar que a literatura de Miguel de Cervantes cumpre essas requisições, entre tantas outras. Também a obra de Érico avança sobre o tempo, pois para além de representar mítico, histórico e artisticamente a identidade, de agregar e correlacionar povos desde os originários até aqueles que integram a vida citadina; desde os que vivem e são do Rio Grande do Sul, até os cisplatinos e adjacências, ela, como numa espécie de microcosmo, representa a diversa brasilidade.

Em suas escrivinhações, Érico deve ser considerado um motivo sempre atual para o deleite, a provocação, a interdisciplinaridade entre as áreas do conhecimento, como a Língua Portuguesa, a História, a Geografia, os estudos da ética e da cultura, de modo geral. Cabe a escola, pois, ensinar a ler. Enquanto isto não acontece, caminhamos em cordas bambas.
Entendemos que o processo emancipatório dos alunos, da vida na escola, pode ser construído a partir de leituras importantes como essa. Se não pelos temas de O tempo e o Vento, por exemplo, que são por demais interessantes para qualquer leitor, seja então pelo deleite e técnica linguística apurados; seja pelas paixões que sempre se acendem quando lemos algo desse vigor.
Assim é com um clássico, assim é com uma obra marginal, assim é com a arte de fato. Assim é onde quer que estejam os mais comprometidos, originais e determinados escritores, independente de seus status acadêmicos.”
