ENTREVISTA

Otto no Oscar: o premiado diretor de animação é um dos novos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood

O diretor Otto Guerra, conhecido por obras como Até que a Sbórnia nos Separe, é um dos novos membros votantes do célebre Oscar, a premiação que resulta na glamurosa cerimônia de entrega das estatuetas em Los Angeles. Em quarentena devido à pandemia da Covid-19, o gaúcho concedeu entrevista por telefone.

Clara Jardim: Como você recebeu a notícia, e como comemorou?

Otto Guerra: Eu recebi uma mensagem de um amigo meu, do Festival de Gramado, perguntando: “E aí, como é que foi saber que tu estás na Academia?” Academia? O que esse cara tá falando? “Pô, tu não sabe, Otto? Cara, tu foi chamado para ser membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.” Pensei que era uma pegadinha. De fato, pensei que era pegadinha. Abri um vinho e vi que um monte de e-mails começou a entrar com pessoas me chamando. Fiquei totalmente bêbado, e não me lembro mais o que aconteceu depois. Acordei caído no meio da sala, sozinho.

Clara Jardim: O que significa ser um membro votante da maior organização do cinema americano, com 59 países?

Otto Guerra: Li que eles vêm diversificando os membros da Academia há algum tempo. Chamando um pessoal de países ditos periféricos como Brasil e, agora, Coréia, com a inesperada vitória de um filme falado em língua não-inglesa. O Parasita ter ganho o Oscar na categoria de Melhor Filme, primeira vez. Chamaram também atores do filme; o diretor já era membro. Essa abertura pro mundo é saudável para eles; dar uma arejada. E para nós também. O Oscar acaba sendo a grande vitrine do cinema mundial, o prêmio mais importante. Para mim, significa um reconhecimento do trabalho da produtora. Não sou eu, é um monte de gente. Há 40 anos.

Clara Jardim: Me conta sobre o projeto que era apenas uma ideia na última vez em que nos falamos. Aquele com o cachorro filósofo?

Otto Guerra: Estamos fazendo o longa-metragem O Filho da Puta. É sobre o filho de uma senhora, dona de um bordel no sertão. O menino vai em busca do pai. É uma comédia de costumes, road movie. Uma jornada do herói. Tem um cachorro que é um cachorro filósofo, e ele acompanha o menino na busca. Acaba encontrando o cara dentro de uma baleia.

Clara Jardim: Me fale mais do seu trabalho, já que suas ideias não param. Enquanto Cidade dos Piratas está disponível no Now da Net, o que você está aprontando na quarentena?

Otto Guerra: Estamos fazendo dois longas. O outro é, por enquanto, Lica pode tudo, o filme de uma menina que salva o príncipe. É o primeiro filme infantil da Otto Desenhos, com roteiro da Lena Maciel. Uma tentativa de conseguir público (risos). Não, o filme também tem uma grande história; acho que vai ter grande qualidade de direção de arte, de roteiro, de animação. Em agosto, estreia uma série nossa no Canal Brasil: Rocky Hudson: os coubóis gays, do Adão Iturrusgarai. Imperdível. Temos uma série pronta chamada Os Filósofinhos, que está na geladeira, porque o ex-governador Sartori fechou a TVE. Era a parceira de produção. Como não existe mais a TVE, a série não tem mais quem assine. Como em O Terminal, aquele filme em que o personagem fica preso no aeroporto porque o país dele entrou numa guerra e deixou de existir. O passaporte dele não vale mais, então fica morando no aeroporto. Não existe mais a TVE, então a série tá parada. Também, estamos tocando Núcleos Criativos, que são cinco outros projetos. Um longa e quatro séries. Como eu sabia que, com o golpe de estado da Dilma, o cinema brasileiro ia parar e entraria nesse processo de desmonte, como fez o Collor… Só que bem pior, porque a Cinemateca Brasileira, que é todo o acervo do cinema brasileiro, está em iminente perigo de perder tudo.

Clara Jardim: O que está acontecendo com a Cinemateca Brasileira?

Otto Guerra: O dinheiro foi tirado da Cinemateca. A luz que mantém o acervo, filmes da década de 20, 30 e 40 são muito sensíveis. A temperatura tem de estar controlada. Eles correm o risco de perder todo esse material. Eu tô bem apavorado. Virou um pandemônio essa parada da eleição do maluco. O fim do ministério da Cultura; a Ancine parada. Mas eu me antecipei. Em 2016, a gente montou um monte de coisas, e estamos produzindo. Então, temos mais dez anos de produção pela frente.

Foto: Cláudio Pedroso