Entrevista

Ana Paula Padrão: uma mulher que não será definida

No dia 14 de julho, o Masterchef está de volta. Com ele, Ana Paula Padrão. Conversamos com ela para saber os detalhes do retorno, em circunstâncias tão diferentes das últimas temporadas, e aproveitamos para descobrir mais sobre essa apresentadora tão amada pelo público brasileiro.

Porque falar da Ana Paula é falar sobre pluralidades. Com decisões ousadas, a apresentadora vem trilhando uma trajetória única, sempre pronta para novas experiências, seja na reportagem, no entretenimento ou em seus empreendimentos. Já cobriu guerras, desastres naturais e a derrocada de um ditador – sem contar Copas do Mundo ou histórias de amor no Alasca. Revelou a realidade do Talibã e do surto do Ebola em reportagens de risco. Foi correspondente internacional nos anos 90 e âncora do Jornal da Globo na primeira metade dos anos 2000. Mesmo tendo a posição que muitos almejam dentro da emissora, migrou para o SBT, em 2005, a convite do próprio Silvio Santos. Iniciou um telejornal 100% novo e empreendeu, criando uma produtora de vídeos cujo primeiro cliente foi o SBT Realidade.

Ana Paula traçou um caminho de independência das antigas grandes corporações – um caminho ainda mais próprio. Deixou sua última bancada em 2013, na Record, para se dedicar a causa das mulheres. Nos anos seguintes, também lançou um livro muito pessoal sobre suas escolhas como mulher, dirigiu a redação da revista Cláudia, dialogando diretamente com o público feminino, e passou a apresentar o Masterchef – sucesso de audiência da Band. Como empresária, dirige a Touareg, que produz vídeos corporativos, a Escola de Você e o evento Mulheres do Amanhã, ambos inteiramente dedicados à mulher.

Jornalista, empresária… quem é Ana Paula Padrão? Já faz tempo: ela se recusou a ser definida. Moderna e bem-humorada são apenas adjetivos que casam bem com o jeito de tocar a vida, mas defini-la é inútil. Melhor somá-la.

Clara Jardim: O Masterchef está de volta na semana que vem! Recentemente, você contou que conseguiu domar a ansiedade da quarentena para se concentrar em leituras para valer. Como está sendo o processo de voltar ao trabalho nos tempos de Covid-19?

Ana Paula Padrão: Estou muito feliz em voltar a ver os amigos e o estúdio. É até uma situação reconfortante ter algo familiar para mim depois de um período em que tantas coisas novas e estranhas se passaram. A rotina é um afago. Ao mesmo tempo, cheguei para trabalhar um pouco tensa e tomando muito cuidados com cada gesto. Estou me acostumando com as novas rotinas, que são muitas, para que possamos levar ao público que sente tanta falta de nós um produto leve e que é produzido com segurança para todos os envolvidos na equipe de produção.

Clara Jardim: Você é declaradamente feminista, e sempre lutou pela causa das mulheres. Pelo direito de fazermos nossas escolhas, por respeito e igualdade. E você compartilha suas experiências. Por exemplo: alguns colegas homens riram quando você contou que gostaria de filmar no Afeganistão. Mas você foi ao país, filmou e voltou com um material muito significativo, isso quando a pena máxima para jornalistas que filmassem ou sequer falassem com afegãos era a morte. Como mulher, o que essas reportagens em locais tão difíceis significaram?

Ana Paula Padrão: Olhando hoje, em perspectiva e com o devido afastamento emocional, vejo que foram importantes para abrir portas para outras mulheres e para que não se encare com estranheza o fato de uma profissional fazer escolhas que não parecem triviais para uma mulher. Mas confesso que, na época, não fiz as reportagens para provar que uma mulher poderia fazê-las. Fiz porque elas me atraíram, porque era minha área de atuação como jornalista e porque eu as desejei, com muita certeza e muita força. Não pensei em provar nada para ninguém. Acho que esse tipo de pensamento nunca me guiou em nenhuma decisão que tomei na minha vida. 

Clara Jardim: Na vida profissional, suas escolhas chamam a atenção por sempre buscarem maior independência. Você não gosta nenhum pouco de rótulos ou de ficar amarrada, e também não foge de riscos. Como lida com os momentos de grandes decisões?

Ana Paula Padrão: Não sou intempestiva. Sou bastante intensa mas penso muito antes de decidir. Quando estou diante de uma encruzilhada sinto medo e batem várias inseguranças. Mas o tempo vai dissolvendo esses sentimentos. O fato de pensar muito, ponderar, imaginar as consequências de diferentes decisões vai me dando certeza do que realmente quero. Isso me acalma e me dá coragem e, quando decido, não olho pra trás.

Clara Jardim: Para a gente encerrar a entrevista, conta para mim qual é o prato que você mais gostou de preparar nesses tempos de quarentena?

Ana Paula Padrão: Meu marido, Gustavo, adora quando faço Beef Wellington mas como preciso de um tempinho de preparo eu raramente me aventuro. Desta vez fiz um que ficou, modéstia à parte, muito bom! 

Foto: Pelo incrível Fernando Louza / Reprodução do Instagram de Ana Paula