Entrevista

Uma por todas: a inabalável luta de Luiza Brunet

Aos 54 anos, Luiza Brunet teve quatro costelas quebradas pelo então companheiro, Lírio Parisotto, com quem estava há aproximadamente quatro anos. A agressão aconteceu em 2016, fora do país, e culminou na denúncia de violência doméstica, com uma grande cobertura midiática. Em 2017, o agressor foi condenado a prestar serviço comunitário ao longo de 12 meses, sendo a decisão mantida com unanimidade na segunda instância.

Empresária de sucesso e conhecida desde sempre pelo público como uma das modelos mais famosas do Brasil, Luiza Brunet passou a lutar arduamente para que todas as mulheres em situação de violência se ergam contra seus agressores. Ao lado de grandes ativistas da causa, compartilha sua experiência e acolhe a história de outras vítimas para que não se sintam sozinhas.

Ela não será calada, e transborda sua luta em palavras.

Clara Jardim: Luiza, você precisou de muita coragem para quebrar o silêncio e denunciar seu agressor, o que significava ficar totalmente exposta aos olhos do público. Foi perseguida por determinado grupo, mesmo com quatro costelas quebradas, e continuou firme na luta pela verdade. Por quais estágios você passou até ter força para esse processo?

Luiza Brunet: Coragem nunca me faltou na vida. Precisei romper e me posicionar sempre, desde menina. Me colocando entre meus pais quando brigavam, discutiam ou quando ele estava com a arma na mão, na frente dos filhos, dizendo que mataria a minha mãe. Eu tinha sete para oito anos. Aos 12, saímos do Mato Grosso do Sul para o Rio de Janeiro. Não foi fácil sofrer bullying por conta da aparência e jeito caipira de falar. Trabalhar em casa de família dos 12 aos 14 anos me custou um abuso sexual. Sem saber do que se tratava, decidir pegar minhas poucas coisas e ir embora. Não se falava destes assuntos, era tabu no ano de 1977. Trabalhei em lojas de rua, sempre sofrendo assédio moral e tentativas de abuso sexual por conta dos patrões abusadores. Vivia mudando de emprego para fugir desse tipo de comportamento naturalizado.

Cresci independente e forte. Fui emancipada para casar aos 16 anos. O segundo casamento aos 22 anos. No terceiro, sofri violência doméstica. Reuni toda a minha força e coragem. Decidi denunciar o agressor e companheiro. Estava disposta a não me tornar mais uma vítima ou só estatística. Meu caso teve grande repercussão, o que levou a pauta de violência doméstica em patamares jamais vistos. Fui perseguida por um grupo de mulheres que eram amigas do agressor. O grupo se intitulava de Liretes. Foram covardes, agressivas. Falavam coisas contra a minha família, contra a minha honra. “Vagabunda, golpista, armou tudo isso pra tirar dinheiro do pobre coitado, prostituta de luxo, marmita de Brasília”, entre outras nomenclaturas. Felizmente, tenho centenas de prints. Embora ele tenha sido condenado, as agressões continuaram. E só pararam porque movi processos contra uma gaúcha, Daiane P., e Rosangela V., de São Paulo. Elas foram condenadas a pagar indenização; outras sossegaram. Mas se voltarem, eu voltarei à justiça.

Não tenho mais medo de nada, e confio na justiça

Clara Jardim: Hoje, você é uma voz importantíssima no combate à violência doméstica, e seu relato encoraja outras mulheres a se erguerem contra o ciclo de abusos.

Luiza Brunet: O mais importante é saber que eu me tornei uma voz forte e firme no enfrentamento à violência doméstica. Viajei para Ásia, Europa, e Estados Unidos para falar com mulheres imigrantes. Esta é a minha missão. Dizer às mulheres que não tolerem relacionamentos abusivos por muito tempo. Não tenham medo nem vergonha de fazer um boletim de ocorrência. Uma vez feito, jamais retirem, pois o agressor voltará a agredir. A violência é uma patologia reincidente.

luiza brunet por sergio zalis
Por Sergio Zalis

Clara Jardim: Esse grupo articulado pelo seu agressor a perseguiu incansavelmente em 2016. Ser atacada por mulheres deve ter sido especialmente difícil de engolir durante a recuperação física e emocional. Por que é tão importante que mulheres apoiem outras mulheres, sobretudo quando uma delas denuncia uma agressão?

Luiza Brunet: Não entendo como mulheres machistas não se envergonham em julgar se não conhecem nem o agressor, nem a vítima. Em que se embasaram para dar opinião? Na minha interpretação, são mulheres que sofrem ou sofreram agressões e violações, mas não conseguem sair por vários motivos, e atacam por falta de compreensão da gravidade do que vivemos. Quando uma mulher ataca outra, ela cala milhares. Quando uma mulher apoia a outra, ela ressignifica, fortalece e encoraja. Temos filhas que podem vir a ser agredidas e filhos que podem ser os agressores… Porém, centenas de outras mulheres e homens compreendem o que isso significa na sociedade machista que vivemos e foram solidários. Quando a justiça condena o agressor, ele sofre penalidades infelizmente pequenas. Ele só vai preso se matar a mulher. Precisamos lutar por penas mais pesadas para inibir futuros agressores. Por isso, é extremamente importante fazer a denúncia.

Clara Jardim: Você também está engajada em campanhas de combate à pedofilia. Com 13 anos, sofreu abusos por parte de um vizinho. Hoje, luta para que outras crianças e adolescentes não passem pelo mesmo. O que a sociedade precisa saber de uma vez por todas sobre essa causa?

Luiza Brunet: Sim, a bandeira do ativismo, uma vez hasteada, ela se amplia muito. O fato de ter sofrido abuso na adolescência me faz ver esta questão com maior cuidado. Estou, sim, muito preocupada com as estatísticas. A cada hora, quatro crianças sofrem abuso sexual no Brasil. É um crime hediondo, com impacto terrível na vida da criança, na adolescência e na vida adulta. A sociedade precisa estar junto no combate a esse crime, denunciando quando souber de casos. Pense que você tem um filho ou uma filha e em como você se comportaria se soubesse que estes estão sendo molestados. Pois é esta a indignação que precisamos ter para combater. Não finja que não sabe, que não viu. Nosso papel como cidadãos é nos posicionarmos diante deste tipo de crime. Senão, estamos compactuando.

Clara Jardim: O que você gostaria de dizer a alguém que está vivendo, neste momento, uma relação tóxica e se sente impotente demais diante do problema?

Luiza Brunet: Acredito que muitas mulheres ainda não perceberam o perigo que estão correndo. O Brasil é o quinto país onde mais se mata mulheres. Quando uma mulher sofre agressões físicas, já antecederam outras agressões. Moral, psicológica, patrimonial, sexual. Por último, vai sofrer o feminicídio. Não tenha dúvidas sobre estes exemplos. Abusos e maus tratos incluem assustar, manipular, magoar, humilhar, intimidar, aterrorizar, culpar, injuriar, ferir. Temos políticas públicas conquistadas. A Lei Maria da Penha. A Lei da Importunação Sexual. A Lei do Feminicídio. Medidas Protetivas. Boletim de ocorrência online. A Ronda Maria da Penha. Estamos comemorando 14 anos da Lei Maria Penha e onze anos do Instituto Maria da Penha. É uma das três leis mais celebradas no mundo, chancelada pela ONU. “Lembrando que a violência de gênero ou violência doméstica é democrática, pois ocorre independentemente de raça, religião, etnia, orientação sexual ou socioeconômico. Dentre as violações estão estupro, feminicídio, violência física, lesbocídio, abuso sexual, violência familiar, violência obstétrica, violência patrimonial, violência institucional, racismo, homofobia, maus tratos a idosos, população vulnerável, deficientes, povos indígenas e imigrantes.”

– Um agradecimento especial ao fotógrafo Sergio Zalis