ENTREVISTA

Em alfa com Carlos Burle, o bicampeão das ondas gigantes

Ele é bicampeão mundial de ondas gigantes, foi pioneiro no tow-in surfing e está no Guinness Book of Records pela performance em Mavericks. Com aproximadamente 35 metros de altura, a onda surfada por ele em Nazaré entrou para a história da modalidade em 2013. Hoje com 52 anos, o pernambucano radicado no Rio de Janeiro atua como treinador de big riders e segue em busca das maiores montanhas de água pelos quatro continentes – isso além de ter seu programa de surf no Canal Off.

Clara Jardim: Carlos, você começou sua história com o mar quando seus pais o levaram à praia por recomendação de um pediatra. Você era muito pequeno. Tem alguma memória disso?

Carlos Burle: Nesse momento em que a minha mãe foi aconselhada a me levar à praia pelo pediatra, eu era muito jovem. Tinha dois anos, e tenho algumas memórias fracas, mas intensas daquela época. Era uma vida cheia de natureza, de liberdade. A gente vivia em uma granja. Meu pai, criador de galinhas. Muitos animais, uma fartura muito grande de árvores frutíferas. Também, muito amor e carinho dos meus pais. Uma relação intensa, visceral com esses elementos. Acredito que, desde o começo, eu tenha sido estimulado a conviver com elementos que me levariam a escolher o surf no futuro.

Clara Jardim: Você tinha aproximadamente 13 anos quando viu garotos mais velhos com pranchas coloridas e pensou “eu quero isso”. Como você entrou no mundo do surf na época da contracultura?

Carlos Burle: Esse foi um momento superinteressante, realmente. Eu estava na adolescência, já com meus questionamentos. Havia a cobrança da minha família em relação ao que ser e fazer da vida. Eu já tinha sofrido um trauma muito grande, a separação dos meus pais quando tinha 8 anos de idade. Existiam esses problemas de crescer com a separação. Novos relacionamentos de ambas as partes, tanto do pai quanto da mãe. E eu, procurando o meu espaço. Percebia que a sociedade era muito hipócrita e, ao mesmo tempo, muito dominadora. Você era induzido a fazer o que a sociedade queria. Como todo garoto que tem esse sentimento de rebeldia, de contracultura mesmo, de fazer o que quer, quando eu vi essa cena de quatro jovens carregando pranchas, todo mundo bronzeado, coloridos, eu achei que aquilo tinha a ver comigo. Era a contracultura; nunca tinha visto aquilo antes. Havia uma relação com a natureza, e quis me envolver com aquele esporte. Naquele momento, não tinha noção de onde ia me levar, mas o esporte preenchia a minha vontade de dizer não a tudo que estavam me impondo. Ao que a minha família, meus pais, meus parentes e a sociedade queriam para mim. E o mais importante de tudo… o surf ia me levar para aquele ambiente que eu sempre gostei muito. Eu não ia mais para as fazendas como quando quando jovem, regularmente. Eu já morava em uma cidade grande. Era a vida de um garoto adolescente que ia para a escola e era questionado constantemente. Achei que o surf me levaria de volta às origens de um relacionamento profundo com a natureza. Então, esses dois elementos foram superimportantes – ir contra a sociedade e estar perto dos elementos que eu gosto.

Clara Jardim: Como a sua mente funciona ao longo de uma onda gigante em Nazaré? São apenas pensamento técnicos, um atrás do outro? Você pensa por alguma fração de segundo que aquilo pode acabar mal? Me fala qual é o pensamento de quem está sozinho em uma onda gigante, tendo de sobreviver a ela.

Carlos Burle: Geralmente quando você vai surfar uma onda grande – em uma situação de adrenalina e de estresse porque sabe que há perigo, e o perigo deixa você em alerta -, você não se conecta muito com o pensamento que te desconecta daquele momento. A mente tem uma tendência a divagar, mas não naquele minuto. Aquele é um momento de flow, de estar presente. Os reflexos são condicionados a tudo o que você treinou. Você tem de estar muito presente para ajudar o seu corpo a reagir da forma mais correta. Então, é um êxtase muito grande provocado por sentimentos fortes de adrenalina, sobrevivência, euforia, medo. A presença do risco, você está tão perto da morte… isso faz você se sentir muito vivo – muito vivo. Mas você não fica divagando, não existe espaço para pensamentos longos. Essas pequenas frações de segundo em que, às vezes, passa a família, os filhos, a esposa e os pais pela cabeça… podem até acontecer, mas não são o principal. O principal é a reação que você está tendo àqueles momentos superintensos que está vivendo naquela onda. O pulo que você está dando na superfície. A onda que está querendo te pegar. Você tem de estar muito presente para ter a reação certa.

Clara Jardim: Você é admirado no mundo todo por recordes dentro do mar. No entanto, houve uma época em que seu próprio pai não colocava fé na profissão de surfista. Como foi passar por essa descrença?

Carlos Burle: Passar por esse desafio de provar que eu poderia viver do surf – provar para os meus pais, para a minha família e sociedade – e realmente concretizar o meu sonho, mas um sonho que não era de mostrar pra todo mundo que eu poderia ser campeão mundial ou performar bem… Porque, naquele momento, eu nem sabia que chegaria onde cheguei, ou que o esporte ia evoluir tanto quanto evoluiu. O que fica muito claro pra mim é que esses desafios me motivaram muito mais do que qualquer coisa. A minha grande intenção no esporte era demonstrar que a gente não devia ter preconceitos e julgamentos em relação às pessoas – rotular e descriminar pessoas por suas escolhas – e que todos teriam e têm o direito de tentar. Com boa intenção, foco, determinação, disciplina… você pode conseguir. Para mim, é muito prazeroso. Não só me motivou, mas me deu forças para continuar durante meus momentos difíceis. Tenho memórias de emoções muito fortes, de choro mesmo. E eu falando para mim mesmo que eu não iria desistir. Esse amor, essa crença toda, essa emoção que é difícil de descrever, ela é muito poderosa. Você precisa dessas energias conspirando do seu lado para conquistar essas coisas na vida. E quando tudo isso é muito verdadeiro, essa energia se multiplica. Ela fica ainda mais forte. Sou muito agradecido por tudo isso. Se eu não tivesse levado todos os desafios para esse lado, e procurado nos meus desafios e obstáculos a motivação e a oportunidade de crescimento, eu não estaria onde estou hoje. E sou muito grato por tudo o que vivi. Muito grato mesmo a todas as minhas relações, como com o meu pai. Meus pais, familiares, a sociedade, tudo. Hoje eu entendo de uma forma muito mais clara. Eu também rotulava, eu também julgava. E vejo que o atrito é importante. O mundo é perfeito para provocar na gente uma situação de necessidade de criar algo novo, de criar algo melhor, de sair do comum. E as novas gerações vão ter desafios diferentes dos nossos. Acho muito legal, a vida é muito dinâmica. A gente tem que entender, confiar. Eu entendo, eu confio, eu aceito e eu agradeço.

Clara Jardim: O Havaí é um grande amor seu. O que fez você se apaixonar especificamente por esse lugar a ponto de fazer a promessa de voltar todos os anos?

Carlos Burle: O Havaí… ele reúne vários elementos que são muito importantes para mim. Eu comecei a me destacar nas ondas grandes antes de chegar lá. Para o surfista profissional, o Havaí é uma arena onde você tem o seu teste final. Se você consegue performar no Havaí, você é aceito pela comunidade; é respeitado. Além desse propósito profissional, o Havaí tem uma natureza muito intensa, muito viva e preservada. Então, há essa união entre profissão e valores pessoais que são superimportantes para mim. Existe uma paz social, um primeiro mundo organizado, preservação. De certa forma, um caminho para a sustentabilidade. Esses elementos todos com as ondas… é apaixonante. Quando cheguei lá pela primeira vez, ainda muito jovem, tinha acabado de fazer 19 anos, eu me apaixonei. Prometi que ia voltar todos os anos. E realmente foi o norte da minha vida. Terminou que essa promessa – tudo muito guiado pelo coração e, ao longo dos anos, trabalhado junto com a razão e o planejamento – me levou a ser a pessoa que eu sou hoje. Sou conhecido pelas ondas que surfo. E o Havaí foi a minha base. Por isso tenho paixão, respeito e gratidão por esse lugar especial para mim.

Clara Jardim: O mar é a sua filosofia, e seus valores são fortes. Do que você não abre mão na sua vida hoje?

Carlos Burle: Olha só, eu não abro mão da minha qualidade de vida. E tem uma frase meio dura que eu falo muito para mim mesmo: “você tem de se encaixar na sociedade.” A sociedade não é só você, o que você quer. O mundo não é só o que a gente quer. É, também, o que a vida quer para a gente. O que ela proporciona para a gente evoluir. O universo é sempre mais sábio. No mundo da profissão e dos negócios, eu posso até vender a minha imagem. Mas eu não vou vender minha alma. E quando eu falo isso, tem coisas muito importantes para mim. Como poder ser quem eu sou, estar com as pessoas que eu quero, ter a vida que eu quero, perto dos elementos que eu gosto, com a rotina que eu escolho. Dormir cedo, acordar cedo. Poder fazer minhas práticas. Ter tempo para mim, para a minha família, para os meus amigos. Dessas coisas eu não vou abrir mão. Não vou abrir mão mesmo. Acho superimportante você entender a si próprio, ter autoconhecimento. Porque você vai precisar tomar várias decisões, optar por um caminho ou por outro. E quando você se conhece mais, você consegue escolher as coisas que são melhores para você. Disso não vou abrir mão, não vou… Porque eu sei que a felicidade está nas coisas mais simples. A felicidade está em você fazer o bem para você e para as pessoas que estão ao seu lado. Estar em equilíbrio emocional. Essa é sua maior contribuição para o mundo. A maior transformação – e mais verdadeira – que você pode fazer é quando está equilibrado, em paz, tranquilo. Nesse mundo em que, muitas vezes, somos questionado e ficamos em dúvidas, tentados a fugir dos próprios valores, você precisa estar muito seguro para não abrir mão dessas coisas que você gosta tanto. E eu não vou abrir mão do que eu amo. Natureza, família, amigos, qualidade de vida. Isso é muito importante para mim.

Foto: Marcelo Maragni / Red Bull