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Yoga em todas as idades: confira as dicas de três professores para começar a prática com convicção e sem preconceitos

Esqueça os corpos esculturais de influencers do Instagram e desapegue da perfeição ligada a treinos mirabolantes. Com o seu corpo de hoje e dentro da sua realidade, você pode ter uma rotina de exercícios eficientes, sem frescuras. O Yoga, por exemplo, pode ser praticado até na sala do seu apê, abrange todas as idades e faz tão bem para o físico quanto para a mente, conectando você a sua paz de espírito. Precisa de um empurrãozinho? Conversamos com três professores de Yoga para saber todos os detalhes de como e porquê começar!

Uma Revista: Vamos iniciar com uma questão básica… O Yoga pode ser praticado por qualquer pessoa em qualquer idade?

Cíntia Warmling: Sim, qualquer pessoa e em qualquer idade. Porque o Yoga não é só uma prática física, mas espiritual. Propõe um equilíbrio entre o corpo, a mente e o espírito. Também, entre a pessoa e o universo – algo maior. O todo está refletido e existe em cada indivíduo. Então, o Yoga é para todos.

Alexandre O. C. Junior: Qualquer idade pode praticar. Só é necessário alguns cuidados, pois cada aluno é um corpo e um universo com a própria história…

George Brum Cereça: Acredito que o Yoga é para todos e, quando digo para todos, é para todas as idades e estados físicos em que as pessoas se encontram. Existe uma ideia muito errada de que você tem de estar com uma postura perfeita para praticar Yoga. Mas não. Ele é a sua jornada em busca de saúde física, concentração e autoconhecimento. Eu particularmente gosto muito de trabalhar com a terceira idade, pois o Yoga não é você fazer a postura perfeita. É fazer um pouquinho melhor do que fez ontem e, amanhã, ter um pouquinho mais de força. O Yoga aumenta muito a qualidade de vida no momento em que fortalece o corpo e, assim, podemos despender mais energia para as nossas atividades.

Uma Revista: Quais os benefícios de uma rotina de vida com Yoga?

Alexandre O. C. Junior: Movimentar o corpo, acalmar a mente, trabalhar a respiração, o autocuidado, conhecer-se e reencontrar-se.

Cíntia: A gente vive com muitos estímulos em todos os sentidos. Som, luz, etc. Nosso corpo físico é estimulado o tempo todo. A meditação é um momento em que você simplesmente para; e tanto a mente quanto o corpo relaxam. As práticas que eu ensino são sempre com um relaxamento final, pois é muito importante. Você começa com uma meditação para se colocar presente; há a prática dos asanas, que vão ativar diferentes partes do corpo relacionadas aos hormônios; no final, o relaxamento leva a descansar. Com o tanto de estímulo que temos, necessitamos descansar.

George: Em um primeiro momento, o Yoga vai fornecer energia física. A partir disso, temos mais energia para executar nossas tarefas. Você vai melhorar a sua respiração, o que é muito importante. Pois é com a respiração que a gente consegue conectar o corpo físico à mente. Através dos exercícios respiratórios e de determinadas posturas em que você fica respirando, há um benefício gigante para o corpo. Você vai aprendendo a ter mais foco nos seus objetivos e paciência, pois as mudanças do corpo acontecem muito lentamente. Você vai conversando com o corpo e aprendendo a ver a vida de uma maneira um pouco mais humana.

Uma Revista: O que vocês recomendam para quem quer dar o pontapé inicial?

George: Para começar a fazer Yoga, o que você mais precisa é de coragem para encarar limitações e um desafio de melhora. É uma prática muito independente. Depois de um tempo, você pode fazer onde e quando quiser. Costumo brincar que, para praticar Yoga, você precisa de corpo e gravidade. Óbvio, quem tem condições de comprar um tapetinho, é um bom começo. O tapetinho vai ser seu companheiro durante as práticas. Um tapetinho que não escorregue. Mas quem quer fazer Yoga sempre vai dar um jeito.

Alexandre: Recomendo disposição e paciência para a prática. Um tapetinho comprado ou improvisado, e um espaço que a prática possa fluir e ir devagar, um pé de cada vez.

Cíntia: O pontapé inicial é começar. Uma recomendação é ir bem devagar. Escolher dois ou três asanas e se concentrar neles. Isso é muito importante. Aprender com o processo, e não ver a aprendizagem como “ah, quero chegar nesse objetivo”. A aprendizagem é o objetivo. O Yoga é muito pessoal, você precisa conhecer seu corpo e se descobrir nisso. Colocar uma meditação no início para se concentrar, e um relaxamento no final para ter os benefícios.

Uma Revista: Quais as principais posições iniciais para aliviar a tensão e estresse do momento?

Alexandre: Há várias. No entanto, qualquer posição que seja possível respirar e se movimentar sentindo conforto e estando presente no agora permitirá o alivio da tensão e o stress do momento.

George: Uma postura que eu gosto de usar para começar as aulas é o Pádahastásana, uma posição em que a gente alonga, vai na frente e atrás junto com a respiração. E independente das posições que você fizer, tente respirar junto e fazer da melhor maneira que conseguir. A respiração pode ajudar muito no que diz respeito à tensão e ao estresse, pois a gente desaprende a respirar ao longo da nossa vida.

Cíntia: Na verdade, a prática contínua de Yoga ajuda muito a aliviar a tensão. A questão do foco, justamente estar concentrado no que você está fazendo. Se está muito tenso e quer voltar para um estado de maior harmonia, primeiro feche os olhos, pois isso já diminui os estímulos. E tente focar no que o seu corpo está sentindo; o peso onde estamos sentados e tocando. Isso ajuda a nos trazer para dentro de nós mesmos.

Uma Revista: Muita gente acha que, para praticar Yoga, o corpo precisa estar em forma. Na visão de vocês, quais são os principais equívocos a respeito da prática?

George: Um equívoco muito grande que acontece é que as pessoas interpretam o Yoga como um exercício meramente físico, e isso realmente está longe da realidade. O Yoga é um conjunto de práticas que vão nos exercitar sobre três aspectos: físico, psicológico e espiritual. Infelizmente, muita gente conhece pouco e acaba interpretando o Yoga como uma prática física ou apenas de relaxamento, e não de força e de desafio. Na verdade, é muio mais intenso. Através dos asanas, se você se concentrar, pode ter duas conversas com o corpo. Costumo dizer que o nosso corpo é o único bem material que garantidamente nos acompanha até o último dia da nossa vida. Então é importante cuidar bem dele, dar carinho e energizá-lo.

Alexandre: O Yoga não busca e não exigi superformas. A gente faz Yoga ao caminhar essa via. Até porque se trata de uma filosofia prática físico espiritual. A prática de posturas para cuidar do corpo é importante, mas é apenas uma parte do Yoga.

Uma Revista: Vamos falar um pouco sobre o Yoga e os homens. Infelizmente, algumas práticas são compreendidas como sendo apenas para mulheres. O que os homens estão perdendo?

Alexandre: Essencialmente, estão perdendo autoconhecimento e a chance de serem menos violentos. Quando o Yoga é colocado como algo só para mulheres, isso reforça o machismo e a violência.

George: Esse preconceito ainda existe. Acho que, aos poucos, está sendo superado. Mas, infelizmente, ainda há muita gente que interpreta o Yoga como sendo coisa de mulher. E isso é realmente muito triste, porque, no Yoga, a gente diz que a sociedade nos molda. Essa história de dizer que é coisa de mulher me traz uma recordação… Há alguns anos, quando eu era iniciante no Yoga, comecei a fazer acrobacia chinesa. Na aula, a gente precisava virar uma estrelinha (movimento básico de ginástica que fortalece a parte superior do corpo). Eu já tinha 38 anos e, obviamente, não consegui. Demorei meses para virar uma estrelinha. Enquanto aprendia, lembrei de quando eu era criança. Tentei virar estrelinha algumas poucas vezes, e as pessoas me diziam que eu não podia fazer aquilo porque era coisa de menina. Anos depois, aos 38 anos, quando eu fui começar a virar estrelinha, o meu corpo já estava totalmente defasado para aquilo. Os músculos se atrofiam, e isso é uma prova de que somos moldados pela sociedade – inclusive fisicamente. Hoje eu já consigo acertar a estrelinha, e não me dó mais as costas.

Cíntia: Ah, menina! Dizem que Yoga é muito parado… Sendo que, na verdade, há várias linhas; algumas são superintensas. É o mesmo motivo de homens não dançarem. Acho que eles têm muita dificuldade para se conectar com eles mesmos; a desconexão do presente e do corpo é ainda maior para os homens. Consideram o Yoga pouco masculino, mas seria incrível se esses homens que se acham tão machos praticassem.

Uma Revista: Você tem dicas de canais no youtube com práticas para iniciantes?

George: A gente sempre recomenda que a pessoa tenha um professor para praticar Yoga. Uma pessoa que observe, que ajude, faça pequenas correções e, sobretudo, explicando. Mesmo assim, quem não tem condições de pagar um professor pode tentar assistir às aulas no Youtube, e um canal com o qual aprendi muito foi o da Pri Leite. Ela tem ótimas práticas para iniciantes. Mas é preciso ter um pouco de experiência para poder lapidar a coisa de uma maneira saudável e segura, para não se machucar. Às vezes, no Yoga, as pessoas se machucam um bocadinho…

Alexandre: Alguns que já vi pelo Youtube são Pri Leite Yoga, Longevidade.Yoga, Prána Yoga… E há uma galera que vem sendo mais ativa pelo Instagram via lives como @yogadoautoconhecimento, @yoga.prabahdra,@anupamayoga, @perifayoga,@arjuna.yog,@nanaturezadoyoga.

Foto: Anupam Mahapatra / Unsplash