ENTREVISTA

Veracidades, uma conversa com Vera Fischer: “Você precisa não ter medos, nem receios, nem vergonhas… Você tem de ir para a vida!”

Talvez, o melhor adjetivo para descrever Vera Fischer seja mesmo exuberante; uma atriz tão inteira na arte que a soma dos seus fatores é sempre venturosa, magnética. Ela também escreve, pinta, direciona sua criatividade para diferentes horizontes e, chegando neles, reluz sem medos – não é à toa que o público tenha tanto orgulho de seu talento. Mas, mais que isso, o que se encontra ao conversar com Vera é uma mulher bastante franca; que pensa exatamente o que fala, sem enfeites – e essas são as conversas mais prazerosas. Em resumo, não há tema que ela não encare de frente; está disponível para o novo e o arrebata.

Hoje celebrando o seu aniversário de 69 anos, a sagitariana fala à Uma Revista sobre os novos trabalhos, experiências de vida e esperanças que iluminam o caminho.

Fotos: Patrícia Lino @callanga / Amarelo Urca

Clara Jardim: Vera, o sucesso da nova websérie Reflexos e da reprise de Laços de Família evidencia o enorme carinho que o público tem por você. Nas últimas semanas, o seu perfil no Instagram ultrapassou a marca de 1 milhão de seguidores, e multiplicam-se as mensagens sobre suas personagens e trabalhos, seja nas telas da TV e do cinema, no teatro ou na internet. Como foi fazer essa transição para um universo digital de novas possibilidades?

Vera Fischer: Eu encontrei um mundo gigantesco de possibilidades. Agora sou parte dele fazendo séries, peças online, cinema. Fazendo de tudo! Eu quero estar em tudo isso, o tempo todo! Eu estou muito feliz de ter feito a websérie Reflexos; foi um personagem muito denso, muito intenso e que exigiu muito de mim, apesar de ser uma produção de episódios de 4 minutos. Foi excelente fazer isso! Era uma equipe de cinema e eu amei fazer… E vou adorar fazer mais coisas assim! Que bom que Laços de Família está fazendo sucesso de novo. Quem não viu em 2000/2001 está vendo agora. Crianças e adolescentes estão adorando. Manifestam carinho, um amor enorme por mim, e eu fico muito feliz. E até pessoas mais velhas, mais maduras, que viram na época, hoje veem com outros olhos. Eu já vivi mais 20 anos, então eles estão vendo também a minha transformação como pessoa; que eu cresci, amadureci. Também não fiquei velha e feia (risos) e isso ajuda muito. Então, as pessoas mandam mensagens de amor o tempo todo, e isso é muito bom.

Clara Jardim: Você conta que a literatura sempre foi uma grande companheira, desde cedo. Quando seus livros foram publicados e fizeram sucesso nas livrarias, o público descobriu uma Vera também narradora através da palavra escrita. Como foi o processo de se tornar escritora?

Vera Fischer: Bom, desde adolescente, quando eu estudava na escola de freiras, eu escrevia histórias, escrevia poemas e ficção. Tudo! Eu sempre tive essa vontade, mas sem muito compromisso. Sempre li muito porque quando eu era criança/adolescente não havia televisão, não havia nada na minha cidade. Na verdade, eu assisti à televisão pela primeira vez na minha vida aos 16 anos. Até então, só tinha a vitrola com rádio, cinema aos domingos e era isso! Então, eu lia muitos livros… tudo quanto era livro eu lia. E isso também aumentou, digamos assim, a minha vontade de viajar nas palavras, nas histórias; criou um repertório muito grande de personagens, pensamentos e de textos dentro de mim. E, em 2004 ou 2005, eu comecei a escrever o meu primeiro livro. Foram dois livros, um atrás do outro. Não são uma biografia narrada, como são todas as outras biografias. Eu só escrevi o que quis, sem falar mal das pessoas – acho isso horroroso. Contei a minha verdade, falei sobre os trabalhos, sobre a minha visão de vida e tudo mais. E os dois últimos foram ficções, histórias leves… quer dizer, há algumas coisas pesadas, mas são invenções da minha cabeça. Eu acho que, quando a gente inventa, na ficção, vale tudo! Vale o bem, vale o mal, vale o certo, vale o errado! E, assim… eu tenho 10 livros ainda para serem lançados, que eu vou pensar com carinho para que seja o mais rápido possível (risos), quando as pessoas puderem ir às livrarias para comprar livros.

Clara Jardim: Hoje, a ideia que prevalece sobre Vera Fischer é de uma mulher forte, que vive sem arrependimentos, o que significa ter coragem diante da vida. Inclusive, você já disse que essa firmeza de espírito é fundamental para sobreviver aos sofrimentos e sair inteira deles. Como desenvolveu essa perseverança?

Vera Fischer: Bom, eu sempre tive que ser, né?! Desde que eu resolvi sair da casa dos meus pais. A única forma que eu encontrei foi a de ser Miss e vencer. Vencer, vencer, vencer! E, para isso, você precisa ter coragem. Você precisa não ter medos, nem receios e nem vergonhas! Você tem que ir! Tem que ir e trabalhar. Ir para a vida! Então, foi o que eu sempre fiz. Sempre trabalhei, ganhei meu dinheiro sozinha e vivi minha vida sem depender de absolutamente ninguém. E é assim até hoje! Então, óbvio que quem não tem coragem tem medo de sofrer, tem medo de ser passada para trás, tem medo de ser rejeitada pelos outros. Eu passei por todos os sofrimentos que um ser humano pode passar, ou talvez mais ou sei lá… menos! Mas eu saí absolutamente inteira. Estou muito feliz com a minha vida. Adoro a minha vida. E é isso aí (risos)! Eu sou corajosa e ponto!

Clara Jardim: Em tempos de pandemia, você está confiante nos dias melhores que virão. Como tem sido essa montanha-russa de 2020 para você, e qual a importância da esperança e do bom humor no seu cotidiano?

Vera Fischer: A esperança é uma palavra que existe em mim. Sim, eu sempre tive uma coisa positiva. E bom humor! Talvez, nem sempre tenha tido. Aos 20 anos, eu era meio emburrada, meio mal-humorada. Não aguentava muito a vida, não achava muita graça nas pessoas. Achava todo mundo muito falso. Ainda tem né?! (Risos) Mas eu ganhei um bom humor maravilhoso com o passar dos anos, e eu uso esse bom humor no meu cotidiano. É impressionante a leveza, o bom humor, a parte positiva, ela existe fundamentalmente! Eu acho também que, neste ano de 2020, estou em um caminho cheio de ramificações, para todos os lados. Para cima, para baixo… E eu posso ir por todos esses caminhos! Porque todos os caminhos vão dar num lado positivo. Mesmo! Eu estou realizada e feliz. Trabalhando muito e com pessoas muito responsáveis e talentosas. Tenho uma equipe ótima! As meninas da Amarelo Urca, que fazem gestão de imagem e redes sociais. Andréa Francez, que é especialista em direito do entretenimento. Estou cercada de gente muito competente, moderna e que tem trabalhado comigo para alcançar o resultado que vocês estão vendo. E é isso que eu quero! O ano de 2020 me trouxe força e está sendo muito bom! Estou fazendo um monte de coisas novas, diferentes, e ano que vem farei mais!

Um agradecimento especial à fotógrafa Patrícia Lino, a @callanga, à Marta Loureiro e toda a equipe da Amarelo Urca.