ENTREVISTA

Vanelli Doratioto, escritora e especialista em neurociência: “Toda pessoa disfuncional dá sinais desde os primeiros encontros de que tem problemas sérios de caráter e conduta”

O perfil da escritora Vanelli Doratioto faz sucesso nas redes sociais por dialogar diretamente com mulheres sobre a experiência de amar. Especialista em neurociência e comportamento pela PUCRS, a paulistana conta que cresceu dentro de um mundo particular, no meio das araras, cavalos, pavões e cachorros em uma chácara. Sempre foi apaixonada pelo ofício da escrita, e chegou a montar artesanalmente pequenos livros de contos quando tinha 19 anos, mas o projeto de se dedicar inteiramente à literatura ficou engavetado por bastante tempo. Hoje, aos 39 anos, Vanelli mergulha na escrita como colaboradora de diversas publicações, mas também por meio do Instagram, com textos que viralizam em formato de post.

Em entrevista à Uma Revista, ela fala sobre o amor na pandemia, relacionamentos tóxicos e a sua paixão pela escrita voltada ao feminino.

Fotos: Arquivo Pessoal

Clara Jardim: Nos seus stories do Instagram, você reflete sobre o comportamento humano por meio das pinturas de seus artistas favoritos. Por que é tão fascinada pela história da Lady Godiva?

Vanelli Doratioto: Amo pinturas em geral, pois toda pintura conta uma história, mas as da confraria Pré-Rafaelita, um grupo formado por pintores ingleses em meados do século XIX, me encantam em especial. Os Pré-Rafaelitas pintavam lendas arturianas, gregas e mitos. E essa pintura da qual falamos é uma reprodução da que foi pintada por John Collier, em 1898. Resumidamente, Godiva era casada com o Duque da Mércia por volta do ano 1000 d.C., e pediu ao marido que isentasse os habitantes da cidade do pagamento de impostos. Ele concordou, desde que ela cavalgasse nua pelas ruas da cidade. O marido achou que Godiva não aceitaria, mas ela o fez. Assim, ele acatou o pedido e baixou os impostos. É uma pintura que demonstra, com maestria, a força que o feminino tem, de um jeito único, de contornar situações que, à primeira vista, parecem intransponíveis.

Reprodução da pintura de John Collier no apartamento de Vanelli

Clara Jardim: Seus seguidores votaram nos stories para que você contasse a história da Verdade saindo do poço, uma pintura de Jean-Leon Gérôme. Você se importa em repetir a história para nós?

Vanelli Doratioto: Escrevi uma história chamada La Petite Mort, na qual a personagem chamada Alice, a Verdade, abre a porta nua para receber a Outra, que seria a Mentira. É uma crônica, e tem a base conceitual inspirada em uma parábola do século XIX, na qual a Mentira fala para a Verdade que o dia está lindo. Mesmo desconfiada, a Verdade concorda com a Mentira. Então, a Mentira fala para as duas tomarem banho em um poço porque a água está ótima. A Verdade desconfia, mas acaba por concordar que a água realmente está maravilhosa. No entanto, no meio do banho, a Mentira sai correndo, rouba as roupas da Verdade e passeia mundo afora disfarçada de Verdade. E a Verdade caminha nua e, envergonhada, por vezes volta ao poço para se esconder. No meu texto, no entanto, a Verdade triunfa, pois muitas coisas, dentre elas o amor e o êxtase no amor, dependem da verdade para existir.

La Vérité sortant du puits, de Jean Léon Gerome, 1896

Clara Jardim: Você é uma contista de mulheres, e um de seus principais temas é a busca por relacionamentos autênticos. Como enxerga o amor em 2021?

Vanelli Doratioto: Em tempos como esse em que estamos, vivemos o amor de uma forma mais sincera, e viver o amor é imprescindível para sairmos bem de situações difíceis. Acredito que, assim como em 2020, muitas relações irão se fortalecer e tantas outras irão ruir. O nosso controle das coisas esmoreceu, e olhar demorado para o outro tornou-se imprescindível. E esse olhar demorado revelou surpresas boas e ruins. Para quem vivia uma relação autêntica, as afinidades tornaram-se mais perceptíveis, e para quem vivia uma relação com ranhuras profundas, a convivência tornou-se quase insuportável. O tempo mudou, as águas amansaram, e o fundo do rio se tornou mais perceptível à todos.

Clara Jardim: O que fez você se voltar para a escrita de novo, depois de tanto tempo afastada?

Vanelli Doratioto: Foram anos complicados longe dos textos. Tornei a escrever bastante tempo depois, quando passei a sentir muita falta de ar ao me deitar. Entendi que precisava voltar para aquilo que amava e que tinha ficado para trás: escrever. Por conta desse retorno à escrita, passei a publicar semanalmente em uma revista digital. Depois fui convidada para ser colunista de alguns sites e, hoje, escrever é inerente ao meu ser. Não me vejo sem a escrita.

Clara Jardim: Nas lives Sessão da Madrugada, você e a escritora Pamela Camocardi falam sobre vínculos afetivos. Como surgiu o projeto?

Vanelli Doratioto: Quando conversamos sobre as lives, pensamos em fazer algo diferente, que fosse mais informal e íntimo. Então, inventamos as lives da madrugada. Essas lives sempre começam à meia-noite, e nós duas gravamos de pijama. Respondemos perguntas sobre relacionamentos de forma geral. As perguntas são variadas, mas sempre dentro desse tema. Ela entra com a bagagem dela, e eu com a minha, que, em se tratando de relacionamentos, tem muito a ver com a identificação de padrões de comportamento vindos de parceiros disfuncionais. Eu sou suspeita para falar da Pamela, porque somos irmãs de coração. Éramos colunistas em um mesmo site e a nossa afinidade sempre foi declarada. Ela tem um jeito muito sincero de abordar questões afetivas e é uma grande professora quando o assunto é inteligência emocional. Eu particularmente amo pessoas sinceras.

Clara Jardim: O termo embuste está super em alta quando se fala de pessoas que praticam violência psicológica contra parceiras e parceiros. No começo do ano, a modelo Duda Reis declarou ter vivido um relacionamento tóxico com o cantor Nego do Borel, o que foi muito repercutido nas redes sociais e frisou a pergunta: por que tantas pessoas caem em armadilhas, e por tanto tempo? Como especialista em neurociência e comportamento, que dicas você dá para identificar dinâmicas nocivas de primeira?

Vanelli Doratioto: Fiquei bastante impactada com a história da Duda, porque a história dela é a história de milhares de outras mulheres que são tragadas para uma relação disfuncional e, uma vez dentro dela, são esgotadas psicologicamente. Fui criada acreditando que todos tinham a mesma capacidade cognitiva cerebral de sentir, mas com o tempo, e vivendo na pele algumas situações, percebi que não era bem assim. Essa percepção me levou para a área da neurociência e do comportamento. Como pessoas empáticas e sensíveis, acreditamos que, em um relacionamento, do outro lado existe uma pessoa também sensível às nossas questões. Mas, infelizmente, nem sempre é assim. E, quando essa outra pessoa, que pode ser um sádico, um narcisista, um psicopata ou um canalha mesmo, se aproxima, geralmente o faz para se empoderar às custas do parceiro ou parceira. Esse empoderamento usualmente acontece às custas de muita dor psicológica, danos financeiros e físicos. Existe, em toda relação desse tipo, um padrão bem característico para quem sabe mapear condutas falsas de comportamento. Como o abusador não sente, ele representa falsamente o seu sentir, muitas vezes com maestria. Contudo, mais cedo ou mais tarde, a máscara cai, e a vítima vê a real face do abusador. Nessa hora, é preciso ter calma e elaborar um plano para sair da relação o quanto antes. A Duda felizmente conseguiu sair e vai se recuperar, mas é preciso atenção para não repetir os mesmos padrões em relacionamentos futuros. Toda pessoa disfuncional dá sinais desde os primeiros encontros de que tem problemas sérios de caráter e conduta. É preciso prestar muita atenção e não ignorar a intuição, uma aliada valiosa em se tratando de identificar intenções que não são boas. A escolha amorosa é uma das mais importantes da vida de qualquer ser humano e, quando ela é equivocada, o resultado costuma ser dramático e custoso.

Clara Jardim: Enfim, pandemia e solidão. Qual a importância da simbiose para a nossa espécie?

Vanelli Doratioto: O ser humano é um ser comunicativo. A interação para toda pessoa empática é essencial. A dor do distanciamento durante a pandemia tem sido difícil de aguentar. Eu mesma, vez ou outra, me pego desejando abraçar apertado muita gente. Então, diante dessa impossibilidade do toque físico, acredito que a interação virtual é imensamente necessária. É preciso dizer agora o que tem que ser dito. O amanhã tem sido incerto em muitos casos. É preciso ligar, dizer que se importa, dizer que ama. Dizer que sente falta. Que está torcendo. Que o outro é importante. É preciso demonstrar afeto. Essas declarações, mesmo à distância, têm sido curativas. Demonstre agora! Esse tipo de demonstração tem sido um bálsamo para todos nós. E, lógico, quando tudo isso passar, vamos abraçar com muita força e continuar amando com ainda mais vontade.