ENTREVISTA

Reila Gracie: “Escrever a biografia do meu pai ao mesmo tempo em que meu filho adotava o jiu-jitsu como profissão e alçava o pódio de campeão absoluto da família exigiu tanto de mim que nem sei como consegui suportar a pressão”

Por Clara Jardim

O sobrenome a precede. Sim, a escritora e editora de arte Reila Gracie é filha de Carlos, o criador do jiu-jitsu brasileiro, e mãe de Roger, que detém o título de maior campeão de todos os tempos. Mas, longe dos tatames, é ela quem garante que a história da família também seja transmitida às próximas gerações por meio da obra Carlos Gracie, O Criador de uma Dinastia, que deve ser relançada após cinco edições bem-sucedidas, e cujos direitos já foram vendidos para virar série de televisão.

Em entrevista à Uma Revista, a carioca fala sobre a história da família, passado e futuro, a filosofia do esporte, igualdade de gênero, machismos e mais.

Tudo começou em 1917, quando Gastão Gracie levou o filho para aprender jiu-jitsu com Mitsuyo Maeda, na época chamado de Conde Coma, no Pará. Carlos não só absorveria a técnica com maestria, mas criaria uma nova arte suave, promovendo torneios e treinando seus irmãos e descendentes, o que mudaria a história do esporte para sempre…

Reila e Carlos Gracie
Fotos: Arquivo Pessoal

Clara Jardim: Ao longo de dez anos, você estudou a trajetória do seu pai para escrever um livro que detalha sua vida, a evolução do jiu-jitsu no Brasil e, também, a construção do nome Gracie no mundo. Por que essa obra é única no universo do esporte?

Reila Gracie: Não conheço nenhuma outra obra literária sobre o jiu-jitsu e a família Gracie que tenha sido analisada e escrita e por quem vivenciou a história de dentro, e fundamentada com o grau de profundidade e abrangência histórica impressa nesse livro. A pesquisa oral foi feita no momento limite, quando a geração do meu pai ainda estava viva, na casa dos oitenta e noventa anos. Hoje, seria impossível remontar a sua trajetória sem os depoimentos que colhi dos meus tios, tias, irmãos, irmãs e todos os parentes e amigos já falecidos que conviveram com ele e testemunharam fatos da sua vida pessoal e profissional. Eles acreditaram na seriedade do meu projeto e abriram seus corações e arquivos, expondo inclusive intimidades que me permitiram entender as sutilezas e complexidades da personalidade de cada um e da ocorrência dos fatos com mais riqueza de detalhes.

Clara Jardim: Como surgiu a proposta de série para o livro?

Reila Gracie: Pouco tempo depois do livro ser lançado apareceram algumas produtoras interessadas em comprar os direitos autorais para transformá-lo numa obra audiovisual. Algumas propostas não foram atraentes e outras havia pontos de discórdias no contrato que me fizeram desistir de fechar o negócio.

Quando lancei o livro em inglês, meu primo Rigan Machado fez uma grande divulgação em Hollywood e recebi várias propostas de produtores americanos. E quase fechei com a Icon, do Mel Gibson, que ficou muitíssimo interessado. Depois de quase um ano de negociação sem conseguir chegar a um acordo contratual, apareceu um grupo de produtores brasileiros, da Papaki, que cobriram a proposta, aceitaram os pontos importantes estabelecidos por mim no contrato e então fechamos negócio.

Tenho certeza de que a densidade do volume de informações contidas no meu livro deixou os produtores muito entusiasmados e seguros para investirem em transformá-lo numa obra audiovisual. Eles estão em negociações para produzir uma série junto com uma grande produtora americana, e acredito que, em 2022, será lançada. Vamos aguardar…

Clara Jardim: Ampliar a linha do tempo da obra até os dias de hoje está nos seus planos para a próxima edição?

Reila Gracie: Para dar continuidade aos dias atuais, ou próximo disso, eu teria de fazer uma nova pesquisa e adotar o eixo da narrativa centrado na figura do meu tio Hélio, privilegiando obviamente a trajetória dos campeões mais recentes da família e o papel que ele exerceu para perpetuar a tradição da passagem de bastão após a morte de seu irmão mais velho.

O livro termina em 1994, ano de falecimento de Carlos Gracie. O campeão absoluto do clã nessa época era o meu primo Rickson, e ele estava começando o processo de consolidação internacional de sua carreira no circuito japonês de MMA. Depois dele, o bastão de campeão absoluto passou para o Roger, meu filho, que ainda o detém.

Escrever a biografia do meu pai ao mesmo tempo em que meu filho adotava o jiu-jitsu como profissão e alçava o pódio de campeão absoluto da família exigiu tanto de mim que nem sei como consegui suportar a pressão. O fato de Roger ser o primeiro campeão absoluto vindo da linhagem feminina o deixou numa posição totalmente singular. A única forma que encontrei para conseguir orientá-lo a fazer as escolhas certas foi me colocando como ponte entre ele e meu pai. Esse processo de cumplicidade foi tão rico de significados que um dia pretendo registrá-lo em detalhes. Todavia, o mais verdadeiro e desafiador seria fazer isso dentro de uma narrativa autobiográfica; de outra forma, eu não conseguiria manter o distanciamento necessário. Então, acho melhor que a continuidade da história da dinastia Gracie seja escrita por outra pessoa. Se um dia eu me sentir pronta e estimulada, pode ser que mude de ideia e reveja minha decisão.

Clara Jardim: Outras pessoas também aprenderam as mesmas técnicas que o seu pai, inclusive com Mitsuyo Maeda, naquela época. Mas foi Carlos quem as absorveu de forma visionária…

Reila Gracie: Meu pai era um homem sensitivo, dotado de sensibilidade e capacidade de percepção excepcionais. Ele entendeu a essência do jiu-jitsu sentindo em si próprio os benefícios que o conhecimento dessa arte marcial exerceu na sua personalidade e na forma de lidar com o meio em que vivia. Ao adotar o jiu-jitsu como profissão e ensinar aos irmãos, ele criou um processo de transmissão de conhecimento das técnicas da luta que se perpetua até os dias atuais. Com o nascimento de seus filhos, 21 ao todo, sobrinhos e netos, a família se transformou numa tribo, ou comunidade, totalmente engajada no aprimoramento e expansão do jiu-jitsu.

O fato dele ter acreditado verdadeiramente na eficácia e no potencial transformador do jiu-jitsu que ele praticava e de ser um homem tenaz, persistente e dotado de um empreendedorismo visionário e de uma enorme capacidade de persuasão, impediu que as técnicas de chão desaparecessem, como ocorreu com tantos outros conhecimentos seculares. A criação de uma dinastia de lutadores, comprometida em dar continuidade ao aprimoramento e a expansão dessa arte marcial, foi sem dúvida a forma mais eficaz que ele descobriu de mantê-la viva.

Escrever a sua biografia foi uma espécie de missão que me atribuí para preservar a integridade do seu lugar na história do jiu-jitsu Gracie e Brasileiro, e oferecer às próximas gerações da minha família e de praticantes da arte suave um referencial de identidade para que se desenvolvam de forma construtiva e saudável.

Clara Jardim: Hoje, muita gente encara o BJJ como uma modalidade esportiva e nada mais. O que os alunos estão perdendo quando ignoram a filosofia de vida ensinada por Carlos?

Reila Gracie: Como um genuíno naturalista e espiritualista, Carlos Gracie compreendeu a vida e a si próprio partindo da premissa de que o ser humano é parte indissociável da natureza. E, como na natureza, todos os seres estão diretamente interligados ao fluxo da vida como uma teia infinita de conexões, o jiu-jitsu para ser plenamente compreendido e assimilado na dimensão da sua grandeza e completude não deve ser praticado apenas como uma técnica corporal. Através dessa arte marcial milenar de origem budista, meu pai conseguiu se tornar um ser humano mais seguro e espiritualmente evoluído, e entendeu que deveria valorizar a vida e a saúde acima de tudo, mantendo sempre uma conduta construtiva.

Sinto muita tristeza quando vejo um professor não se sentir comprometido em agregar os fundamentos filosóficos concomitantemente ao ensino da técnica. Ao fazerem essa desassociação, privam seus alunos e a si próprios de assimilarem a dimensão humana e transcendental da arte marcial, isto é, a dimensão socioeducativa, ecológica, espiritual e comportamental que meu pai agregou ao jiu-jitsu Gracie e Brasileiro. Na filosofia o aluno encontra sentido e significados que o ajudarão a nortear suas escolhas e a enfrentar os desafios impostos pela vida fora dos ringues e das academias. Esse conhecimento subjetivo Carlos Gracie chamava de jiu-jitsu mental.

Clara Jardim: O ambiente das lutas sempre foi masculino. Barreiras têm sido derrubadas, principalmente na última década, mas ainda há muito a ser feito. Como você comenta o cenário atual?

Reila Gracie: O fato das instituições que regem o jiu-jitsu terem admitido mulheres nas competições sem dúvida representou um avanço importantíssimo no processo da inserção feminina no esporte, mas ainda há muito o que fazer para igualar as oportunidades e direitos respeitando as devidas diferenças de gênero. Homens e mulheres são fisicamente diferentes e os professores precisam ficar atentos. O universo feminino é repleto de subjetividades que devem ser consideradas dentro de uma academia e na relação entre professores e alunas. Do contrário, a visão e o modelo didático masculino se perpetuará, e a mulher continuará sendo tratada como inferior em expressões embutidas na fala, nos diálogos, nas brincadeiras nas entrelinhas da linguagem construída por um machismo estrutural existente na nossa cultura e sociedade.

Até os dias atuais, os desafios impostos às mulheres na luta por igualdade de oportunidades e direitos são inúmeros. Dependendo do ângulo de observação, muitas conquistas que aparentemente representaram um avanço, na prática, não promoveram diferenças estruturais tão significativas. Precisamos ficar atentas para isso. A igualdade de gênero se consolida de fato quando a mulher adquire voz, independência e poder de decisão. Pintar as unhas de vermelho e usar batom nas competições embeleza, mas não promove necessariamente um fortalecimento da identidade feminina no esporte. Adotar uma postura em defesa das mulheres exigindo dos patrocinadores o mesmo tratamento dado aos homens, sim. Prestigiar as realizações de outras mulheres e refutar qualquer tipo de discurso misógino, sim. Exigir que as instituições do esporte incluam mulheres no estafe de juízes de ringue e de mesa, e no corpo de funcionários, sim. Exigir que as academias punam alunos que se comportem de forma desrespeitosa com as mulheres nos treinos mistos é uma norma que precisa ser absolutamente rigorosa e monitorada pelas federações e confederações.

As mudanças estruturais ocorrem verdadeiramente, primeiro, no âmbito individual, depois as aplicamos no âmbito coletivo. Se os agentes que encabeçam esse processo de inclusão e reestruturação interna do esporte não estiverem comprometidos com a pauta de reinvindicações das mulheres, suas ações não passarão de um jogo de cena, e os efeitos serão irrelevantes na promoção de avanços. Ainda há muitas lutas a serem travadas pelas mulheres no universo esportivo. Hoje, elas estão sendo obrigadas a lidar com uma nova ameaça: a presença das transsexuais femininas nas competições esportivas. As instituições que representam o jiu-jitsu precisam se posicionar e levar essa questão a público para que a inserção das trans não promova a exclusão ou a impossibilidade de destaque das mulheres no esporte. Esse tema é delicado e deve ser tratado abertamente com bom senso, equilíbrio e isento de qualquer preconceito e transfobia. É uma questão puramente biológica e deve ser avaliada dentro do âmbito científico. A espécie humana é múltipla, e as diferenças precisam ser identificadas, compreendidas e respeitadas, garantindo espaço para todos. Deixo aqui essa pauta para reflexão.

Clara Jardim: Você conta que escreveu o livro como um gesto de agradecimento ao seu pai, por sempre tê-la apoiado, prestigiado e protegido. O que mais pessoas deveriam saber sobre o legado de Carlos?

Reila Gracie: Suavidade, doçura, gentileza, amorosidade, sutileza, simplicidade, capacidade de se colocar no lugar do outro, cuidados com a saúde, com a natureza, com as pessoas em geral e noção de respeito faziam parte do ideário de masculinidade que meu pai representava. Essa visão binária, inculta e sem educação que vem contaminando o mundo da luta como marca de virilidade e masculinidade é uma deformação perigosa, que deturpa completamente o propósito e o sentido do jiu-jitsu como veículo de autoconhecimento, inserção social e evolução espiritual. “Nunca tivemos em mira acirrar ânimos, provocar rixas, excitar temperamentos e adestrar corpos humanos para finalidades que reduziriam os nossos discípulos a lamentáveis êmulos de galos de briga.” A frase de Carlos Gracie reflete a preocupação que ele já tinha de desassociar o jiu-jitsu da violência e da truculência, dando à arte suave que ele praticava e ensinava um propósito didático pacificador e socioeducativo.

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