Crônica

Sabrina Ferri: “Veja bem, eu não gosto de mentir. Mas, após todos esses anos, aprendi que esse não é o tipo de conversa breve. Minhas respostas eram curtas, pois, a cada pergunta, outra dúvida surgia.”

Por Sabrina Ferri

Dia desses, fui a uma unidade do Tudo Fácil para fazer a minha carteira de identidade. Como o nome mesmo diz, sem filas, sem complicações e com a agência quase sempre vazia.

Eu era a próxima a ser atendida quando o garoto da mesa ao lado me chamou. Com os papéis em mãos e o olhar curioso, perguntou:

— Foi acidente?

— Foi.

— De carro?

— Sim.

Veja bem, eu não gosto de mentir. Mas, após todos esses anos, aprendi que esse não é o tipo de conversa breve. Minhas respostas eram curtas, imediatas, pois, a cada pergunta, outra dúvida surgia. Que balanço? Que altura? Onde? Como? Por quê? Eu precisava evitar explicações detalhadas, não era o momento nem o local. Você pode pressupor que esse tipo de diálogo exige certo grau de intimidade. Caso tenha pensado nisso, sim, ela é necessária. Mas o bom senso é uma flor que não cresce no jardim de todos.

Tantas perguntas levariam aquele papo a um desfecho com conclusões nem sempre agradáveis. Eu apenas queria fugir de situações constrangedoras, de ouvir “você é tão bonita para estar numa cadeira de rodas…” Sério mesmo? Moço, não temos tempo para que eu explique o que significa capacitismo numa tarde chuvosa, dentro de uma repartição pública. Não me leve a mal, falaríamos disso sem problemas, mas precisaríamos de tempo.

Após eu confirmar o suposto acidente, ele passou a divagar sobre a violência no trânsito. E eu, sempre concordando com o que ele dizia.

Fui encaminhada ao guichê ao lado para tirar as minhas digitais. Dividiam a mesa dois estagiários adolescentes. O garoto insistiu em me acompanhar – agora, eu tinha plateia.

Enquanto o mais jovem escaneava as minhas digitais, ele não se conteve e perguntou:

— Isso é… O nome é parap

Eu interrompo e digo “tetraplegia”.

— Mas mexe o quê?

— Dos ombros pra cima.

— Foi acidente, né?

— Aham.

— De carro?

— É.

— Foi alta velocidade ou…?

— Alta velocidade.

Eu respondo já rindo, não sei mentir. Sinto meu rosto corar e fico com vontade de gritar que é mentira. Rebato mantendo o bom humor e pergunto se eu estava respondendo a um interrogatório.

O garoto, sempre sorridente, conta do acidente de carro que sofreu aos 10 anos. Foi salvo pela irmã, que soltou o cinto, pois o carro caiu de uma ponte.

Então, o jogo vira, uma culpa me corrói por dentro e eu anuncio a mentira. Explico que fica mais fácil concordar com a teoria do acidente do que explicar a queda do balanço. Mas o garoto é sagaz e, quando percebo, já estou sendo interrogada novamente. As perguntas pelo balanço vêm em sequência, rápidas o suficiente para serem esclarecidas antes que o atendimento termine. A curiosidade humana deveria ser estudada. Quase não consigo perguntar quando poderei retira a nova carteira de identidade.

Agradeço e vou embora.

Quando estou entrando no carro, percebo o olhar curioso do taxista que está estacionado ao lado. Ele se dirige à janela do motorista e já chega com a sentença:

— Gelo na nuca — diz ele, afirmando que era milagroso. — É só colocar gelo na nuca. Procura no Google para ver só, cura tudo!

Ele soletra “g-o-o-g-l-e” pausadamente. Reúno as minhas forças para balançar a cabeça, concordando. Não quero dar explicações, quero chegar em casa.

No curto retorno, passamos em frente a igreja Universal; por sorte, ficava do outro lado da rua. Ainda bem, porque o ócio criativo eu aguento… Sermão da igreja, não!

(Crônica Foi acidente?)

Quem é Sabrina?

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Cronista convidada pela Uma Revista, a gaúcha Sabrina Ferri é uma apaixonada por literatura, séries e cinema. Atualmente, escreve o seu primeiro romance, cuja trama se desenrola no período da ditadura militar. E observa o cotidiano em suas crônicas, proporcionando aos leitores o seu ponto de vista repleto de autenticidade e senso de humor. Especialista em sabores, a criadora da Sarada Alimentos também empresta as suas percepções para lá de aguçadas sobre especiarias em resenhas de dar água na boca.