ENTREVISTA

O campeão olímpico Cesar Cielo fala sobre sua história, o futuro e estratégias infalíveis para dominar o medo: “Você não precisa nem sentir vontade do que tem de fazer, só precisa fazer”

Lenda do esporte, Cesar Cielo é o nadador brasileiro que chegou lá. Além do merecido ouro olímpico e dos recordes globais, o atleta representa uma verdadeira cultura esportiva que alcança jovens nadadores nos quatro cantos do país – e sua experiência se traduz em lições práticas para a nova geração. O pódio, claro, é feito de treinos e disciplina, mas também de exaustão, medo… Como não desistir no dia a dia? Em conversa com a Uma Revista, o campeão dos 50 metros livre conta mais sobre a sua história, o futuro e as estratégias que usa dentro e fora das piscinas.

Clara Jardim: O Instituto Cesar Cielo, que comemora 10 anos em 2020, incentiva a natação como uma ferramenta de crescimento pessoal na vida dos alunos. Você já falou que o esporte não é competitivo, mas social, “um meio de ascensão, mais gente fazendo faculdade, mais gente crescendo”. Ao longo da sua trajetória, você sempre viu a possibilidade de estudar e acumular vivências. Qual a importância de desconstruir a ideia de que só vale a pena ser atleta se conseguir ser campeão?

Cesar Cielo: Eu sempre busquei ser o melhor no que eu fazia, independente da área. Se precisasse estudar, eu me dedicaria para ser o melhor da sala e para ser um grande profissional na área que eu escolhesse. Então, eu tinha muito claro que eu me dedicaria. Colocaria uma disciplina e um esforço diferenciados em prática para ser um dos melhores, senão o melhor profissional da área em que eu fosse trabalhar. Calhou de dar certo no esporte, mas eu tinha em mente que queria ser um dos melhores. A natação foi evoluindo e chegou ao ponto em que eu me tornei o melhor nadador do mundo. Mas foi passo a passo, e sempre com um plano B na manga. Porque é muito difícil lidar com centésimos de segundo na piscina, e a ideia era sempre utilizar o esporte para abrir portas que não se abririam de outras maneiras. Fui estudar fora com uma bolsa acadêmica. Se a natação não desse certo, eu poderia voltar para o Brasil com o diploma de uma universidade estrangeira, uma superexperiência de vida… Uma vivência legal. E acho que isso ainda me posicionaria no meu objetivo maior de ser o melhor na minha área de trabalho.

Clara Jardim: Basta olhar para você que a gente já lembra do ouro olímpico e do recorde histórico, mas foram vitórias construídas em cima de muito desgaste psicológico. “Uma guerra mental”, nas suas palavras. Antes de Pequim, chegou a pensar em jogar tudo para o alto e falar “não quero mais isso, não é para mim”. No mundial, “quero sair correndo”. Até mesmo com 13 anos, “eu quase parei de nadar”. Além dos tapas que nós já vimos você se dando para aquietar os pensamentos antes de mergulhar na piscina, como aprendeu a não desistir?

Cesar Cielo: Olha, eu acho que uma das lições mais importantes que eu aprendi com o esporte é que você não precisa querer, você não precisa gostar do que tem de fazer. Você não precisa nem sentir vontade do que tem de fazer. Você só precisa fazer. Se você se propôs a treinar da melhor forma possível, em muitos dias da semana, do mês ou da temporada – talvez, na maioria dos dias –, não vai ter vontade de treinar. Não vai gostar do treino. Mas o importante é cumprir o treino com o melhor esforço que puder, todos os dias. Ter ciência de que talvez não coloque em prática a melhor performance da sua vida agora; mas é o melhor que você tem para hoje. Quando faz esse tipo de coisa o tempo inteiro, você não escuta as suas emoções. Não escuta o que está sentindo, o que quer fazer. Começa a criar uma barreira mental para não escutar esse lado do cérebro que quer fazer o que é confortável. Essas atitudes diárias vão alimentando isso. Porque você vai sentir medo todos os dias; os pensamentos negativos vão aparecer para todo mundo. A diferença não está em não ter pensamentos negativos. É saber lidar com eles; deixar eles passarem a ponto de não influenciarem você. Esse é um trabalho de muito esforço e de fazer muita coisa que não gosta – mas faz. Toda vez que você pula na água gelada em que não quer pular, é como se falasse para o cérebro:

– Pode falar o que você quiser. Eu vou pular na água e farei um baita treino!

No meio da série de treino, você sente dor, e o cérebro diz:

– Pô, dá um migué! Vai mais de boa e tira o pé do acelerador pra a gente não sentir tanta dor!

E você acelera ainda mais para dizer ao cérebro:

– Pode reclamar o quanto quiser. Eu só vou parar quando não aguentar mais!

Isso vai se acumulando e, quando chega na hora dos momentos críticos, você já está treinado a não escutar. Você sabe que os pensamentos vão vir, mas o lance é não deixá-los crescer. Não dar importância para eles.

Clara Jardim: Você vê o significado pessoal em cada conquista, e considera a medalha de bronze mais importante que a de ouro na sua história. O que o bronze mudou dentro de você?

Cesar Cielo: A medalha de bronze me deu a confiança que eu precisava. O tempo inteiro eu fiquei falando para mim mesmo – e acreditava – que podia colocar uma performance na prática, mas não estava conseguindo. No revezamento, não consegui. Na eliminatória, não consegui. Na semifinal, não consegui. E, na final, que era quando eu mais precisava, foi quando eu consegui colocar em prática o que eu acreditava conseguir fazer. Mais do que qualquer coisa, voltei a acreditar em mim. E eu sabia que, para alguém ganhar de mim nos 50 metros depois daquele bronze, teria de bater o recorde mundial. Eu tinha isso dentro de mim. “Se alguém for ganhar de mim, vai ter que nadar muito porque agora eu tô sentindo que ninguém vai me parar.” O bronze me deu a confiança de acreditar em mim de novo em um momento que estava bem difícil. Vi meus adversários em uma situação mais complicada, e vi que eu cresci. Enquanto eu crescia, alguns deles foram caindo, e o cenário foi ficando muito favorável para mim.

Clara Jardim: A natação é individual, mas você já deixou claro que “não há nem como pensar em chegar a algum lugar sozinho”. Qual o papel dos seus pais desde o começo?

Cesar Cielo: A família é o alicerce de tudo. Se não fossem os meus pais, com certeza, a gente nem estaria fazendo essa entrevista porque eu não teria conquistas relevantes. Eles foram responsáveis por grande parte da minha carreira. Brinco que eu só ia lá e nadava; quem fez o trabalho duro e diário foram eles. Acordar cedo e ir à campeonatos comigo, passar o dia inteiro esperando para eu nadar 20 segundos. Sou muito agradecido por eles terem acreditado em mim, comprado esse meu sonho e pagado o preço junto comigo. Acho que o mais importante é isso. Tive suporte em todos os momentos, principalmente nos mais difíceis. Nunca, em momento nenhum amoleceram, pelo contrário. Sempre me jogaram para cima nos momentos difíceis. Foi um trabalho em conjunto muito grande, e a gente tem uma sintonia muito boa. Eu não tenho dúvidas. Não tem como eu apontar apenas um fator do porquê tudo deu certo, mas se eu fosse apontar o mais importante, diria que são os meus pais.

Clara Jardim: Depois de 2020, o que está nos seus planos dentro da piscina?

Cesar Cielo: Depois de 2020, boa pergunta! Olha, eu tenho ido para a piscina uma vez por semana nesse momento de pandemia. Tenho mantido cinco treinos por semana, algumas vezes na musculação. Mas essa não é a rotina de treinamento de um atleta que quer ir para as Olimpíadas e ter grandes resultados. Eu precisaria aumentar bastante o volume de treino, a carga de intensidade. Nesse momento, tenho prazer em estar na piscina e em fazer o que eu quero fazer. Continuar em forma, continuar incentivando a molecada perto de mim aqui, no projeto social. E eu fico feliz em poder fazer isso só com a minha presença na piscina. Estou em um local que gosto de estar, com pessoas que tão ganhando uma energia extra e se inspirando em mim só por eu estar ali também. Dessa forma, eu vou continuar levando. Tá muito gostoso de fazer isso em Santa Catarina. Agora, com relação à seleção e campeonatos internacionais, não tenho previsão. Não consigo nem falar se eu vou voltar a competir pela seleção brasileira um dia. O que eu tenho de plano fixo agora é continuar nadando pela cidade de Itajaí, pelo clube Marcílio Dias. E seguir minha carreira junto com as empresas que a gente vem abrindo, de uma forma harmônica. Feliz com a natação, feliz com os meus negócios e incentivando essa molecada para a gente ter futuros campeões.

Foto: Osvaldo F