ENTREVISTA

Até o cume da Montanha Assassina: Uma conversa com Moeses Fiamoncini, que já esteve no topo do Everest, K2, Manaslu e foi o primeiro brasileiro a conquistar o temido Nanga Parbat

Se você assistiu ao filme Sete Anos no Tibet, lembrará do austríaco Henrich Harrer, vivido por Brad Pitt, planejando escalar o desafiador Nanga Parbat nos Himalaias. São 8.126 metros de altitude e rotas que já tiraram dezenas de vidas, que se saiba, desde o século XIX. Mas Harrer foi capturado por soldados ingleses às vésperas da Segunda Guerra Mundial, sendo este o fim do seu projeto. A chamada Montanha Assassina só seria conquistada anos depois, em 1953, pelo também austríaco Hermann Buhl – que subiu ao cume sem a ajuda de oxigênio suplementar.

Em 2019, foi a vez de um alpinista nascido e criado no Brasil. O paranaense Moeses Fiamoncini chegou ao topo da montanha assassina também sem o auxílio de oxigênio suplementar. No mesmo ano, tornou-se o primeiro brasileiro a escalar três montanhas com mais de 8 mil metros na mesma temporada: Everest, a mais alta do mundo e, na sequência, Nanga Parbat e K2, consideradas as mais mortíferas. A jornada das maiores altitudes, no entanto, começou na expedição ao Manaslu, ainda em 2018.

Em entrevista à Uma Revista, Fiamoncini fala sobre a sua trajetória e o projeto Quatorze Oito Mil, que está à espera de patrocínio para ser retomado.

Registro feito por Fiamoncini na escalada do Nanga Parbat, também conhecido como Killer Mountain

Clara Jardim: Você testou seus limites no Manaslu, a oitava maior montanha do mundo, quase dez anos depois de passar dos 5 mil metros pela primeira vez no Chile. Como descreve a longa preparação de um alpinista para, um dia, aventurar-se pela cordilheira do Himalaia?

Moeses Fiamoncini: É um processo que leva tempo, pois só podemos adquirir experiência e preparação escalando e passando muitos perrengues na montanha. É preciso ser muito resiliente. Além do físico, o alpinismo exige muito preparo emocional para lidar com situações adversas em locais onde você não tem muitos recursos e conta com ajuda limitada. É preciso entender seus próprios limites, julgar com sabedoria cada ação tomada. Também tive muita sorte em conhecer e escalar junto com grandes nomes do alpinismo mundial, como Sergio Mingote, Juan Pablo Mohr e muitos outros que compartilharam suas experiências comigo. Nas outras montanhas que escalei, sempre acompanhei os guias na mesma velocidade. Eles me diziam que eu era forte, que tinha resistência, e fui acreditando neles. No Manaslu, tive a oportunidade de acompanhar o time dos Sherpas* mais fortes, os que fixam as cordas. Acabei observando e abrindo caminho com eles. Cheguei até 7.300 metros de altitude sem oxigênio suplementar e descobri uma força interior com a qual eu acho que não havia tido contato antes. O guia não carregou nada para mim; eu mesmo levei aquela mochila pesadíssima enquanto ele ia com uma mochila pequena. E também percebi que eu era muito resistente ao frio. Sempre tomei banho gelado, até no inverno; mesmo quando tomo banho quente, troco para a água fria no último minuto, e isso também deve ter me ajudado ao longo do tempo.

*Os Sherpas são um povo oriundo das montanhas do Nepal. Em tibetano, o nome significa povo do leste. Muitos deles se dedicam ao alpinismo e desempenham funções de grande importância como a preparação de rotas e o carregamento de equipamentos como barracas, comida, roupas, gás e tanques de oxigênio. Os Sherpas mais fortes instalam as cordas que serão usadas nas escaladas e, também, realizam missões de resgate.

Clara Jardim: Quanto pesa uma mochila daquelas?

Moeses Fiamoncini: Tendo em vista que eu ainda não havia escalado uma montanha de 8 mil metros, a mochila devia ter cerca de 26kg no Manaslu. Já no Everest, eu deixava mais coisas no campo base; só levava o necessário para a sobrevivência. Você vai aprendendo, com o tempo, a levar menos coisas com você.

Clara Jardim: Em grandes altitudes, nosso cérebro e pulmões recebem muito pouco oxigênio; os riscos envolvem perda cognitiva. Como chegou à decisão de escalar as montanhas tecnicamente mais arriscadas sem a ajuda de oxigênio complementar?

Moeses Fiamoncini: Quando comecei o projeto das Quatorze Oito Mil, até pensei em fazer tudo com oxigênio. Mas, não sei… Entrei em contato com essas forças que eu não sabia ter. Não sei se é genético, mas o psicológico me ajuda muito. Hoje, eu já penso em concluir o projeto sem oxigênio. Já fiz os testes de VO2, e o pessoal do Hospital do Coração de São Paulo está me estudando, sabe? E não há nada de anormal. Existem atletas com um potencial pulmonar e cardiovascular muito mais forte.

Clara Jardim: O que acontece na sua cabeça durante uma experiência a 8 mil metros? Você lembra de absolutamente tudo?

Moeses Fiamoncini: Lembro de tudo, estou sempre consciente. Por exemplo, você está no limite… Em cinco minutos, pode ficar muito mal e perder o poder de decisão, não saber mais o que fazer. Então, você precisa estar 100% atento, conectado ao seu corpo e à sua respiração, fazer a leitura do seu corpo. É essencial. E tenho isso; consigo estar ali sabendo os meus limites. Passando deles também, indo além do que eu imaginava, mas sempre consciente, sabe? Para tomar a decisão de recuar ou continuar. Foi o que aconteceu no Lhotse, onde eu estava a 8.300 metros de altitude, sozinho, sem Sherpa ou oxigênio. Meus amigos que saíram antes já estavam no cume – e eu, a duas horas de distância deles. Nesse trecho, você tem que estar muito consciente. Pode continuar? Não pode? O tempo está mudando? A tomada de decisões em altitudes é um fator muito importante, e algo que pouca gente tem. Muitas pessoas sobem com guias porque elas não têm o poder de decisão; estão na mão dos guias e eles que decidem. E uma expedição de 8 mil metros exige uma logística muito grande; é um trabalho de equipe. Agora, se está sozinho na montanha, você é 100% responsável pelas suas decisões. Nesse trecho, é a decisão entre vida e morte. Não pode falhar. No Lhotse, o que pesou foi o tempo, pois começou a ventar. Ainda estava bonito, mas me passaram mensagens do rádio do acampamento dizendo para eu descer porque ia nevar. Continuei um pouco, mas decidi voltar; em 30 minutos, o tempo fechou e não conseguia enxergar 50 metros a frente. Dá aquele white out, quando a nuvem desce e você não vê nada. Desci rápido. Se eu tivesse continuado, algo poderia ter acontecido.

Clara Jardim: Em que altitude começa a zona limítrofe? E como funciona o processo de aclimatação?

Moeses Fiamoncini: Tudo depende da aclimatação. Cheguei ao cume do K2, a 8.612 metros, em plena consciência, tranquilo, sem sentir dor de cabeça ou cansaço. Sentei e fiquei contemplando. Então, tudo depende de fazer uma boa aclimatação, que é passar mais tempo em altitudes. Subir, dormir uma noite. Descer novamente para o campo base e ficar uns cinco dias ali. Subir para o campo 1 e campo 2, dormir umas noites lá. Esse processo ajuda o seu corpo a se adaptar à altitude. No Everest, o campo base está a 5.350 metros de altitude; todo mundo sobe e desce para o campo base. Mas eu fiz do campo 2, que fica a 6.550 metros, o meu próprio campo base. Então, não descia mais; só ficava do C2 para cima, e isso me ajudou muito a fazer os ataques ao cume e a me aclimatar superbem. Sem oxigênio, cheguei até 8.300 metros do Everest, e abortei a missão de tentar o cume sem oxigênio suplementar. Usei uma garrafa e meia, não foi muito, quase que consegui… Mas precisei tomar antibiótico duas vezes, pois estava com muita tosse e início de infecção na garganta uma semana antes; e o antibiótico acaba destruindo a sua aclimatação. Talvez, não fosse pelo antibiótico, eu estaria bem melhor.

Clara Jardim: Você foi o primeiro alpinista brasileiro a fazer três montanhas em apenas uma temporada, certo?

Moeses Fiamoncini: Foi algo inédito para o Brasil, nunca ninguém tinha feito três montanhas em um ano. Na verdade, eu consegui fazer quatro montanhas em um período inferior a um ano (setembro de 2018 e primeiro semestre de 2019). No ano passado, participei de cinco expedições, também algo que nenhum brasileiro havia feito, mas não cheguei ao cume de duas das montanhas.

Mingote e Fiamoncini no topo do Everest

Clara Jardim: Atravessar as Cascatas de Gelo é um dos momentos mais críticos na escalada do Everest. Como foi a sua passagem por esse trecho?

Moeses Fiamoncini: Sem dúvida, essa é a parte mais crítica e perigosa ao escalar o Everest pela face Sul. A cascata de gelo do Khumbu é a parte mais desafiadora. Lembro que, quando estávamos passando por ela pela segunda vez, um bloco gigante de gelo caiu a três metros do meu companheiro de escalada, Juan Pablo. Se não tivesse saltado, teria morrido. As cordas fixas foram totalmente arrancadas; então passamos por cima, escalando os dois grandes blocos de gelo que poderiam deslizar para baixo a qualquer momento. Tivemos que agir rapidamente para sair dessa zona perigosa.

Clara Jardim: Você chegou ao cume do Everest em uma temporada com 11 mortos. Sem dúvidas, a experiência mais intensa da sua trajetória, pois a descida apresentou muitas dificuldades. O que mais ficou dessa experiência?

Moeses Fiamoncini: A descida realmente foi muito difícil, fechou o tempo. Teve uma parte em que nos perdemos, e as cordas fixas acabaram. Ficamos aproximadamente duas horas sentados esperando o nevoeiro passar para saber o caminho. Não dava para ver nada. Não lembro exatamente quanto tempo demoramos para descer. Normalmente, as pessoas chegam ao cume e descem para o campo 2. Eu desci do cume e fiquei mais uma noite no campo 4, a 8 mil metros. E, com certeza, foi uma das experiência mais difíceis da minha vida. Ao final, fica o respeito pela montanha. Sabendo que, quando entramos nela com vida, por mais que os riscos sejam calculados, nunca sabemos se sairemos com vida. Talvez seja por isso que sempre voltamos, porque a sensação de estar vivo quando estamos na montanha é única. E eu pelo menos não consegui sentir isso em nenhum outro lugar.

Clara Jardim: Então chegou a vez de escalar o Nanga Parbat e o K2 em um período de apenas 22 dias. Qual dessas montanhas foi a mais desafiadora?

Moeses Fiamoncini: Tecnicamente, acho que o Nanga. Havia menos gente, estávamos em 12 pessoas na montanha. E há trechos supertécnicos, como o Kinshofer Wall, que está a mais ou menos 6 mil metros de altitude. É um paredão de 150 metros, uma parede vertical incrível! Você precisa escalar toda aquela parede de rocha com uma mochila pesada e tudo. Só ali, já há uma grande dificuldade. E não havia corda fixa pela maior parte da escalada do campo 4 até o cume. Então, o risco no Nanga Parbat era muito maior do que no K2. Além disso, o ataque ao cume foi feito por uma variante técnica, uma rota mais difícil. Passei muitos perrengues.

Clara Jardim: O que vocês fazem quando não há cordas fixas?

Moeses Fiamoncini: Você continua escalando. Ao chegar a 7.800 metros, é um misto de rocha, gelo e neve. Não há corda fixa, mas você precisa continuar escalando. Cada um por si. Eu estava com o espanhol Sergio Mingote, mas é cada um por si. Caiu, caiu. Se caísse nesse trecho, chegava ao campo base. É preciso muita paciência, calma e continuar escalando.

Clara Jardim: Doze pessoas no Nanga Parbat… E quantas no K2?

Moeses Fiamoncini: No começo, mais ou menos 130 pessoas. Restaram 30, pois 100 desistiram. Mas havia cordas fixas desde antes do campo 1 até o cume do K2, e isso facilita muito. O que pegou foi o frio. A parte mais terrível é quando o sol começa a nascer; é quando congela.

Fiamoncini no cume do K2

Clara Jardim: Me conta os maiores perrengues que você passou na Montanha Assassina…

Moeses Fiamoncini: Durante a escalada, perdi uma das minhas headlights e, no ataque ao cume, perdi a segunda. No dia seguinte, quando voltávamos do campo 4 até o base, eu não tinha luz à noite. Seguia a luz do Sergio. Às vezes, ele pulava alguma fenda e colocava a luz para mim. Eu ia correndo e pulava. E foi bem difícil, pois acabamos nos perdendo no meio do glaceado; não sabíamos onde estava o campo base e já era quase meia noite. Não havia indicação ou claridade. Alguém do campo base viu uma luz descendo, e eles estavam muito preocupados porque sabiam que havia dois alpinistas, mas apenas uma luz. Pensaram que um de nós havia morrido. Então, uma pequena equipe saiu. Foram para perto do glaceado e ficaram fazendo sinais de luz para nós. Seguimos aquela luz e chegamos. Eles ficaram muito felizes que havia duas pessoas voltando.

Clara Jardim: Qual é o cume mais bonito?

Moeses Fiamoncini: Para mim, é o Nanga. Porque, lá de cima, você consegue ver o K2 de muito longe. Consegue ver o Broad Peak ao lado, o G1 e o G2 também. É uma vista linda! Você está no topo do Nanga Parbat e sabe que vai ter de descer tudo aquilo. E, em dez dias, estará no cume da outra montanha, o K2, que é lindo, lindo.

Clara Jardim: No topo do Nanga, você já está na mesma altitude que os aviões?

Moeses Fiamoncini: Sim. Os aviões voam um pouquinho mais acima. Lembro que, quando eu estava indo para Skardu, no Paquistão, o avião passou quase ao lado do Nanga. Foi incrível de ver. Eu ainda não sabia se iria escalar a montanha por questões de patrocínio. Só havia pago o K2. Amigos meus estavam partindo para o Nanga e me chamaram. Dei um jeito e acabei indo.

Clara Jardim: O projeto Quatorze Oito Mil consiste na escalada das 14 montanhas com mais de 8 mil metros, e você já esteve em quatro cumes. Como funcionam os patrocínios para um alpinista brasileiro no país do futebol?

Moeses Fiamoncini: No momento, estou sem patrocínio. Ainda estou batalhando para conseguir, e tudo o que eu fiz até o momento foi do meu próprio bolso. Acabei organizando algumas pequenas expedições para conseguir continuar. Devido à pandemia, não sei… Eu sonho em escalar no ano que vem, mas existe a possibilidade de eu não dar mais continuidade ao projeto se não houver patrocínio.

Clara Jardim: Quanto custa escalar uma montanha?

Moeses Fiamoncini: Dependendo da montanha, as pessoas pagam 65 mil dólares – normalmente. Isso sem incluir o equipamento. No Everest, por exemplo, paga-se 11 mil dólares de taxas governamentais. Você também paga o serviço de logística do campo base e o trekking para chegar até lá. Depois, os Sherpas – o mais caro são os custos com a altitude. Há os Sherpas que fixam as cordas, também os Sherpas que vão instalar as barracas e cuidar de você. No fim das contas, com transporte e treinamentos em outras montanhas, vai a mais de 100 mil dólares.

Clara Jardim: Como é a preparação para as expedições?

Moeses Fiamoncini: As pessoas me perguntam muito como eu treino para subir montanhas. Eu não treino nada! Não faço academia. Gosto de correr, bicicleta e, às vezes, faço hidroginástica com os velhinhos. Mas sempre usei a montanha como treino. As pessoas treinam muito para subir o Everest. Eu usei o Everest para treinamento. Acho que só a mentalidade de eu usar uma montanha tão perigosa e difícil como treinamento já me leva além. Porque aquilo ali não é o fim, é só um treino. A perspectiva fica diferente. E, do campo 2 ao campo 1, voltamos correndo (risos).

Clara Jardim: Você fala da importância de conseguir analisar as situações friamente para tomar a melhor decisão e saber que pode confiar no próprio julgamento. Sempre foi psicologicamente forte ou adquiriu essa força ao longo dos treinos? Como lida com a ansiedade e o medo?

Moeses Fiamoncini: Sempre fui assim. Lógico, as emoções estão sempre ali ao lado. É preciso analisá-las… Às vezes, até penso que uma dor ou o cansaço nada mais é do que uma emoção. Então, vem a mensagem “tá doendo”. Mas por que está doendo? Para chamar atenção. Então, é só trabalhar esse pensamento, deixar de lado e focar no objetivo. Você está colocando o corpo em situações de risco extremas. Ele começa a mandar essas mensagens. “Você está aqui, pode morrer, pode passar por isso, aquilo…” Se der atenção a esses pensamentos, eles dominam você, e vai acabar voltando. É preciso ter um bom controle emocional. Acho que como tudo na vida, quando focamos em algo que queremos e colocamos energia nisso, tudo flui naturalmente e não há espaço para pensamentos de medo e ansiedade, quando já estamos envolvidos de mente e coração no que amamos fazer. É muito prazeroso e gratificante, pois estou escalando por prazer e realização pessoal.

Clara Jardim: Uma curiosidade que muitas pessoas têm quanto aos vídeos das escaladas… Antes de passar por cristas com mais de 500 metros de queda em cada lado, você chega a olhar para o abismo ou só focaliza o caminho que seus pés devem fazer?

Moeses Fiamoncini: Quando comecei a passar por essas cristas, sempre foquei nos meus pés com tanta intensidade que os abismos ao lado deixavam de existir. Assim, seguia 100% focado em cada passo que dava. Hoje, com mais experiência, desfruto muito mais das cristas e, muitas vezes, ando nelas apreciando a paisagem ao redor, olhando para baixo com muita naturalidade e sem estresse. É realmente um momento único e um privilégio estar lá.

Clara Jardim: Por fim, o que você está planejando para 2021?

Moeses Fiamoncini: Buscando compartilhar um pouco da minha vivência em alta montanha, principalmente no Nepal. Estou organizando dois grupos para realizar o trekking ao Campo Base do Everest… Serão dias de caminhada, contemplação e muito autoconhecimento. Fica o convite para quem quiser fazer parte dessa aventura junto comigo. É só ficarem ligados nas minhas redes sociais e, em breve, todos os detalhes serão divulgados.

Obs.: Antes de Moeses Fiamoncini, o franco-brasileiro Michel Vincent (filho de pais franceses, nascido no Rio de Janeiro, mas criado na França), escalou o Nanga Parbat com sucesso em 1999.