ENTREVISTA

Dominique Miller, do Texas a Honolulu com a surfista autodidata que alcançou o TOP 5 mundial de stand-up paddle: “Senti que poderia realmente ser eu mesma aqui; não precisava mais esconder quem eu era ou ter vergonha”

Neste Dia Internacional da Mulher, a surfista afrolatina Dominique Miller fala à Uma Revista sobre a experiência no Havaí, a chegada ao ranking mundial e o seu propósito de abrir caminhos para as minorias no surf.

Fotos: Oscar Sweep

Clara Jardim: Você alcançou o 5º lugar no ranking mundial de stand-up paddle em 2018, e também pratica longboard. Quais são os maiores desafios em cada categoria?

Nique Miller: Amo competir nas duas categorias, mas são completamente diferentes. No stand-up paddle, o surf é mais progressivo e envolve grandes manobras, como cortes e acertar a borda da onda. Muito parecido com o shortbording. Já no longboading, o surf tem mais a ver com graça e estilo, fluir, andar até a ponta da prancha, fazer outras manobras. Acredito que fazer as duas coisas me torna uma surfista mais completa e exercita diferentes partes do corpo e da mente. Também sinto que isso me dá uma visão diferente sobre como ler as ondas e surfá-las. A parte negativa é que é muito difícil competir nas duas categorias ao mesmo tempo, pois cada campeonato vai para diferentes locais do mundo. Começa a ficar muito caro e, às vezes, não tenho dinheiro suficiente para fazer as duas coisas, infelizmente. Por isso, tenho que escolher as rotas de acordo com as minhas chances de ganhar, e que eu possa bancar. Viajar do Havaí para outros países é longe e caro.

Clara Jardim: Como o surf virou uma profissão para você?

Nique Miller: Ao crescer, meu principal foco foi corrida e jogar lacrosse. Tive ofertas de bolsas para desenvolver ambos os esportes na faculdade. Escolhi correr. Nas horas vagas, comecei a entrar para valer no surf. Nunca tive uma aula formal ou qualquer treinamento, tudo que aprendi foi observando os outros e praticando constantemente. Eu era péssima no começo, mas surfar era algo que eu realmente gostava e queria melhorar. Estava muito determinada a ser o melhor que eu pudesse. Em alguns anos, já era boa o suficiente para participar de concursos locais e, logo depois, de profissionais. Até o momento, minha classificação mais alta foi a 5ª no mundo, mas não quero parar por aí. Meu sonho é ser campeã mundial.

Clara Jardim: Qual a sua visão da representatividade no esporte hoje?

Nique Miller: Quero ajudar a pavimentar esse caminho, pois ainda há uma enorme ausência de diversidade dentro da indústria do surf. Com mais representação e inclusão, muitas outras pessoas poderiam se ver refletidas e, assim, querer entrar para o surf. Quando saio para surfar, vejo tantas pessoas com diferentes cores de pele, formatos, tamanhos, idades, gêneros e níveis de experiência… É isso que quero ver na indústria – surfistas reais, não modelos com corpos perfeitos que nunca tocaram uma prancha em sua vida.

Clara Jardim: Como tem sido sua experiência no Havaí?

Nique Miller: Morar no Havaí tem sido um momento mágico na minha vida! Eu moro em um paraíso lindo, com clima quente, vegetação tropical, águas cristalinas e uma cultura diversificada. Acredito que estar aqui me transformou na surfista que sou hoje; é uma experiência muito boa para a minha mente e o meu coração. Senti que poderia realmente ser eu mesma aqui; não precisava mais esconder quem eu era ou ter vergonha. No Havaí, a cultura e as pessoas são muito receptivas. Compartilham muito mais o aloha do que eu experimentei no continente. A comunidade do surf também é muito receptiva, e as pessoas se importam umas com as outras realmente. Toda vez que remo por Waikiki, conheço as pessoas. Elas cumprimentam você e compartilham da sua alegria quando você pega uma onda. É definitivamente uma mentalidade mais familiar. As pessoas não julgam pela aparência, e isso é o que mais amo nesse lugar.