No Dia Internacional da Mulher, é importante lembrar que a luta pela dignidade feminina acontece em muitos lugares do mundo. E uma gaúcha aposentada decidiu dedicar parte da sua vida a projetos humanitários que apoiam comunidades vulneráveis. Em entrevista, Cláudia Padaratz fala sobre a sua experiência e, principalmente, sobre o que é a dignidade da mulher na prática.
Uma Revista: Como você decidiu, ao se aposentar de uma carreira jurídica, dedicar-se à causa da dignidade feminina como uma luta pessoal?
Cláudia Padaratz: Sempre me perguntei porque a causa feminina me toca tão profundamente a ponto de querer cada vez mais conhecer e me aprofundar neste universo. Tenho certa dificuldade em responder, porque essa escolha não nasceu de um único motivo, mas de uma soma de fatores que foram me conduzindo naturalmente a esse caminho. Minha formação em Direito e minha trajetória profissional sempre me colocaram em contato com muitas realidades humanas. Ao longo desse percurso, percebi com frequência como as mulheres enfrentam desafios específicos, muitas vezes silenciosos e pouco visíveis. Ao mesmo tempo, minha própria condição feminina também contribui para esse olhar. Embora eu tenha vivido dentro de uma realidade absolutamente privilegiada, ainda assim precisei enfrentar, como tantas outras mulheres, alguns desafios e barreiras que eram bastante presentes, especialmente nos anos 80. Há situações que conseguimos compreender de forma mais próxima porque fazem parte da nossa própria experiência. E há outras que, mesmo não estando ligadas diretamente à nossa realidade, pertencem a universos femininos diferentes, mas ainda assim nos tocam, nos inquietam e nos fazem refletir. Por isso, acredito, que essa escolha se deva a um pouco de tudo: da minha formação, da minha atuação profissional, da minha família, das realidades que encontrei ao longo do caminho e também da minha própria vivência como mulher.
Uma Revista: Pelo que você tem observado nas suas andanças, e independente do lugar, qual pauta mais vem à tona quando o assunto é a dignidade das mulheres?
Cláudia Padaratz: Um fato que sempre me chama atenção é de como muitas mulheres, quase uma unanimidade, ainda seguem carregando sozinhas grande parte das responsabilidades da vida, da família e da comunidade, sem contrapartida, e o pior, sem as mesmas oportunidades. Vejo, felizmente, se repetir, em diferentes cenários, o anseio legítimo das mulheres por autonomia e respeito. Mulheres que desejam caminhar com liberdade e dignidade e que sonham oferecer às suas filhas uma perspectiva de vida mais ampla e justa do que muitas vezes foi possível para elas. Sem dúvida, essa é uma pauta que atravessa diferentes realidades e acaba sendo comum em muitos contextos.
Uma Revista: Para você, o que significa dignidade feminina na prática?
Cláudia Padaratz: A dignidade feminina que quero que exista na prática envolve autonomia para a mulher fazer escolhas sobre a própria vida, ao pleno acesso a oportunidades de educação, trabalho e participação social, ao respeito ao seu corpo e à sua integridade e voz nas decisões que afetam a sua vida, a sua família e a sua comunidade.
Uma Revista: Quais pequenas coisas fazem mais diferença na vida de uma mulher em situação vulnerável?
Cláudia Padaratz: Muitas vezes, imaginamos que as necessidades mudam muito de um lugar para outro, mas, na prática, as diferenças são menores do que parece. Senti uma profunda interação e compreensão em uma roda de mulheres em Calenga, onde partilhamos questões femininas. Entre desabafos difíceis e gargalhadas, ao final, nos abraçamos demoradamente, gratas umas às outras. Mas, sem dúvida, em contextos de extrema vulnerabilidade, pequenas coisas fazem uma grande diferença na vida de uma mulher em situação de grande precariedade, que é ser ouvida, ter acesso a alguma formação, contar com uma rede de apoio, ter a possibilidade de aprender e desenvolver atividades que possam até lhe gerar renda ou simplesmente encontrar um espaço de respeito onde possa falar e ser considerada.
