Natural de Serra Talhada, sertão de Pernambuco, Socorro de Assis é doutora em Teoria Literária pela PUCRS e, aposentada após quase três décadas dedicadas à docência em Literatura, ministra aulas numa oficina de criação narrativa, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Eu, Capitu (lançado pela Editora Bá na quinta-feira, 12) é o seu primeiro romance, um contraponto da personagem mais misteriosa da literatura brasileira, que suscitou a dúvida e o debate dos leitores diante da história de Dom Casmurro (Machado de Assis). Em resposta à versão de Bentinho, a famosa ou infame personagem Capitu, desta vez, nos conta tudo o que sempre quisemos descobrir.
Confira a entrevista com a autora.

Uma Revista: A sua Maria Capitolina é língua solta, tudo o que precisávamos. E ela não quer vingança, mas quer falar… Mesmo morta, ela quer falar. Como encontrou dentro de você a voz para ela?
Socorro de Assis: Dizes algo que reveste a história de Capitu, desde o seu interior até às circunstâncias externas: falar tem a ver com justiça, equidade, reparação, e isso é muito diferente do sentido de vingança. Capitu não quer vingança porque seu objetivo é construir sua nova história; construir novas histórias de convivência entre homens e mulheres, entre as pessoas, se pensarmos nos dias atuais. Nessa direção, ela não deseja destruir o passado, mas restaurá-lo. Afinal, para que serve a destruição do passado, se estamos condenadas a ele? É essa a questão que tento captar quando desenterro a voz de Capitu. E esta voz funde-se à minha, ela é a voz de toda mulher, que também pode ser a voz dos homens, nem todos deixarão Capitu soterrada, vide Escobar! Para além desse sentido, confiro franqueza à voz de Capitu, ela é original, nua, aberta; não é dissimulada como a do narrador Bento Santiago. Ou seja, os papeis viraram, e Bentinho foi flagrado no seu estado latente: mente, se disfarça, é oblíquo e dissimulado. É um sabotador da verdade. No fundo, ele temia Capitu, porque ela foi sempre mais forte, principalmente nos dias de hoje, onde ela bate pernas por aí, língua solta, corajosa. Claro que a metáfora de um Brasil que mente para si, e finge que se emancipa à custa de seus fingimentos, é a grande metáfora social de nosso romance. Capitu apenas zomba desse espetáculo grotesco, e deseja desmascará-lo.
Uma Revista: Em Eu, Capitu, a personagem nos diz o que nunca foi dito. E não vamos dar spoilers, mas aquele velho enigma é muito bem desvendado ao longo das páginas. A mulher dos olhos de ressaca não pode mais com o silêncio, e isso é muito poderoso neste romance: a quebra do silêncio, pura claustrofobia, como uma libertação da alma. A franqueza, portanto, ainda é o elemento mais nobre das relações, e o gosto dela está na boca da sua Capitu. Estamos carentes desse tipo de franqueza, não? Precisamos de mais Capitus?
Socorro de Assis: Quando decidi desenterrar Capitu, desenterrei seu passado e seu presente. Trouxe a ela a chance da voz, coisa que lhe fora historicamente negada. Desde que li Dom Casmurro pela primeira vez, senti-me invadida por uma mão imensa e asfixiante, vi-me em puro estado de claustrofobia. Pensei tantos anos sobre isso, que cheguei à conclusão de que o túmulo era inadmissível como morada de Capitu. Ela não caminhou até a cova, foi empurrada para lá, jogada, asfixiada pela mão gigante de Bento e seu staff. O presente é a ocasião de reparação, dado que dirá sempre do que fomos outrora. E é por isso que Capitu fala, acordou; revivesceu. Muitas vozes são sentenciadas ao silêncio, mas nós, os que narramos ficcionalmente, temos o poder de outorgar a liberdade. Bento preferiu sempre a morte. Somente na luz da franqueza, ele poderia salvar a relação com Capitu, mas por covardia, preferiu dar voz ao impostor Casmurro. Eis a razão de nossa clandestina, porque insurgente, vontade de liberdade, traduzida na franqueza sem máscaras, de capitolina.

Leia a orelha do livro, por Leticia Wierzchowski:
“Temos aqui o avesso da moeda de Dom Casmurro. Não é uma moeda qualquer, é das mais valiosas da nossa literatura. Seu avesso, a história de Capitu, que ganha luz pelas tintas de Socorro de Assis, ganha também carne, alma, coração, sexo, desejo. Neste livro, a ressaca de Capitu é o próprio Bentinho. Ela toma a palavra para contar que a verdadeira traição é a falta de amor à vida, coisa da qual jamais padeceu.
Não me espanta que a Capitu desta história, para além da personagem de Machado de Assis, tome forma pelas mãos da minha amiga Socorro. Não poderia ser diferente, temos aqui uma mulher que é a vida mesma, inteira, palpitante, cheia de sede e de fome… Regida pelas mesmas forças que movem as marés e transmutam a lua, Capitu tem o coração elétrico das tormentas e a capacidade de renascer com o tempo.
É bom que finalmente tome a palavra para que nos diga o que nunca foi dito. Capitu foi julgada pelos séculos e pelos leitores, crucificada por um personagem louco, cruel e solitário. Mas, nestas páginas, ela não precisa de sussurros para despir-se do espartilho de silêncios ao qual se viu atada. De mãos dadas com sua autora, Capitolina nos mostra que a vida é turbilhão e fúria; mostra que alguns contam a história, e outros, como ela, tratam de vivê-la.
Benditos sejam.”

Uma Revista é sintonizada e muito atenta com temas que refletem o triângulo literatura, sociedade, mulher. Que coisa boa contar com uma revista tão distinta assim!
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