ENTREVISTA

Socorro de Assis vem lá do sertão, e nos traz a boca de Capitu inteira, todos os segredos da personagem mais misteriosa da literatura brasileira em romance lançado neste mês

Por Clara Jardim

Natural de Serra Talhada, sertão de Pernambuco, Socorro de Assis é doutora em Teoria Literária pela PUCRS e, aposentada após quase três décadas dedicadas à docência em Literatura, ministra aulas numa oficina de criação narrativa, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Eu, Capitu (lançado pela Editora Bá na quinta-feira, 12) é o seu primeiro romance, um contraponto da personagem mais misteriosa da literatura brasileira, que suscitou a dúvida e o debate dos leitores diante da história de Dom Casmurro (Machado de Assis). Em resposta à versão de Bentinho, a famosa ou infame personagem Capitu, desta vez, nos conta tudo o que sempre quisemos descobrir.

Confira a entrevista com a autora.

Por Clara Jardim

Uma Revista: A sua Maria Capitolina é língua solta, tudo o que precisávamos. E ela não quer vingança, mas quer falar… Mesmo morta, ela quer falar. Como encontrou dentro de você a voz para ela?

Socorro de Assis: Dizes algo que reveste a história de Capitu, desde o seu interior até às circunstâncias externas: falar tem a ver com justiça, equidade, reparação, e isso é muito diferente do sentido de vingança. Capitu não quer vingança porque seu objetivo é construir sua nova história; construir novas histórias de convivência entre homens e mulheres, entre as pessoas, se pensarmos nos dias atuais. Nessa direção, ela não deseja destruir o passado, mas restaurá-lo. Afinal, para que serve a destruição do passado, se estamos condenadas a ele? É essa a questão que tento captar quando desenterro a voz de Capitu. E esta voz funde-se à minha, ela é a voz de toda mulher, que também pode ser a voz dos homens, nem todos deixarão Capitu soterrada, vide Escobar! Para além desse sentido, confiro franqueza à voz de Capitu, ela é original, nua, aberta; não é dissimulada como a do narrador Bento Santiago. Ou seja, os papeis viraram, e Bentinho foi flagrado no seu estado latente: mente, se disfarça, é oblíquo e dissimulado. É um sabotador da verdade. No fundo, ele temia Capitu, porque ela foi sempre mais forte, principalmente nos dias de hoje, onde ela bate pernas por aí, língua solta, corajosa. Claro que a metáfora de um Brasil que mente para si, e finge que se emancipa à custa de seus fingimentos, é a grande metáfora social de nosso romance. Capitu apenas zomba desse espetáculo grotesco, e deseja desmascará-lo.

Uma Revista: Em Eu, Capitu, a personagem nos diz o que nunca foi dito. E não vamos dar spoilers, mas aquele velho enigma é muito bem desvendado ao longo das páginas. A mulher dos olhos de ressaca não pode mais com o silêncio, e isso é muito poderoso neste romance: a quebra do silêncio, pura claustrofobia, como uma libertação da alma. A franqueza, portanto, ainda é o elemento mais nobre das relações, e o gosto dela está na boca da sua Capitu. Estamos carentes desse tipo de franqueza, não? Precisamos de mais Capitus?

Socorro de Assis: Quando decidi desenterrar Capitu, desenterrei seu passado e seu presente. Trouxe a ela a chance da voz, coisa que lhe fora historicamente negada. Desde que li Dom Casmurro pela primeira vez, senti-me invadida por uma mão imensa e asfixiante, vi-me em puro estado de claustrofobia. Pensei tantos anos sobre isso, que cheguei à conclusão de que o túmulo era inadmissível como morada de Capitu. Ela não caminhou até a cova, foi empurrada para lá, jogada, asfixiada pela mão gigante de Bento e seu staff. O presente é a ocasião de reparação, dado que dirá sempre do que fomos outrora. E é por isso que Capitu fala, acordou; revivesceu. Muitas vozes são sentenciadas ao silêncio, mas nós, os que narramos ficcionalmente, temos o poder de outorgar a liberdade. Bento preferiu sempre a morte. Somente na luz da franqueza, ele poderia salvar a relação com Capitu, mas por covardia, preferiu dar voz ao impostor Casmurro. Eis a razão de nossa clandestina, porque insurgente, vontade de liberdade, traduzida na franqueza sem máscaras, de capitolina.

O lançamento do romance ocorreu na livraria Universos (Rua Alameda Eduardo Guimarães, 100, Três Figueiras, Porto Alegre).

Leia a orelha do livro, por Leticia Wierzchowski:

“Temos aqui o avesso da moeda de Dom Casmurro. Não é uma moeda qualquer, é das mais valiosas da nossa literatura. Seu avesso, a história de Capitu, que ganha luz pelas tintas de Socorro de Assis, ganha também carne, alma, coração, sexo, desejo. Neste livro, a ressaca de Capitu é o próprio Bentinho. Ela toma a palavra para contar que a verdadeira traição é a falta de amor à vida, coisa da qual jamais padeceu.

Não me espanta que a Capitu desta história, para além da personagem de Machado de Assis, tome forma pelas mãos da minha amiga Socorro. Não poderia ser diferente, temos aqui uma mulher que é a vida mesma, inteira, palpitante, cheia de sede e de fome… Regida pelas mesmas forças que movem as marés e transmutam a lua, Capitu tem o coração elétrico das tormentas e a capacidade de renascer com o tempo.

É bom que finalmente tome a palavra para que nos diga o que nunca foi dito. Capitu foi julgada pelos séculos e pelos leitores, crucificada por um personagem louco, cruel e solitário. Mas, nestas páginas, ela não precisa de sussurros para despir-se do espartilho de silêncios ao qual se viu atada. De mãos dadas com sua autora, Capitolina nos mostra que a vida é turbilhão e fúria; mostra que alguns contam a história, e outros, como ela, tratam de vivê-la.

Benditos sejam.”

    1 comentário

    1. Uma Revista é sintonizada e muito atenta com temas que refletem o triângulo literatura, sociedade, mulher. Que coisa boa contar com uma revista tão distinta assim!

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