ENTREVISTA

O “certo e errado” que pode adoecer tantas mães: conversamos com a Dra. Ana Jannuzzi sobre aconchego de verdade (e mais leveza) em tempos de maternidade nas redes sociais

Por Clara Jardim

Entrevista com a Dra. Ana Bárbara Jannuzzi, médica, escritora e mãe de quatro crianças, que se tornou uma das principais vozes sobre maternidade nas redes sociais. Autora de livros que abordam desde a gestação até a chegada de um irmãozinho, passando pelo sono dos bebês e reflexões de mãe para mãe, ela fala para mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, compartilhando conhecimento e experiência para ajudar famílias a atravessarem a maternidade da forma mais consciente possível.

Fotos: Divulgação


Uma Revista: Você já impactou mais de 40 mil alunas mães e levou o tema da maternidade também para os livros. De que maneira você percebeu que a maternidade não era só uma vivência pessoal, mas um tema que apaixona você a ensinar pessoas?

Ana Bárbara Jannuzzi: Toda mulher que tem filhos é atravessada, de uma maneira ou de outra, pela necessidade de estudar sobre maternidade. Seja para o seu estudo próprio, seja para ajudar amigas, seja para compartilhar nas rodas, quando a gente começa a participar dessas rodas de amigas. A verdade é que é muito comum que mulheres, depois de terem filhos, comecem a ressignificar o que elas gostam de estudar, o que elas querem aprender, para onde elas querem caminhar, né?

Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Eu fazia residência de oftalmologia quando minha filha nasceu. E eu entendi que eu tinha que começar a falar sobre maternidade, porque a maternidade tinha me atravessado de uma maneira muito intensa. Essa troca com outras famílias me ajudava a ser uma mãe melhor e a aprender mais, ao passo que eu ia ajudando outras pessoas também. Então, é uma troca de apoio, de suporte muito importante.

E foi nesse momento que eu percebi que eu deveria virar os meus olhos para isso, quando a minha primeira filha tinha sete anos de idade. Foi aí que eu comecei a ajudar outras famílias. Isso foi crescendo e crescendo, surgiu a empresa de educação e estamos aí hoje.

Uma Revista: Hoje existe um movimento muito forte de revisão das práticas mais antigas sobre o sono do bebê, e com uma visão que valoriza muito mais o apego e o contato. Em cima de toda a discussão sobre o sono dos bebês, há um relato seu muito interessante sobre uma situação com a sua primeira filha, a Clarice. Certa vez, ela não queria dormir por nada no mundo, e você, depois de tentar de tudo, desistiu, saindo com ela para dar uma volta. Foi aí que ela conseguiu dormir, pois você tinha relaxado. O que você diria para as famílias que estão esperando um bebê, ainda no comecinho da gestação, e pretendem mergulhar em breve nos estudos sobre o sono? Qual seria uma compreensão básica sobre o sono para dar o primeiro passo?

Ana Bárbara Jannuzzi: Para as famílias que têm um bebezinho muito pequenininho ou que estão esperando um bebê, eu diria que a principal coisa que você precisa entender sobre sono é que o sono do bebê, hoje, está inserido num contexto de muita promessa e muito marketing. E uma falta de compreensão sobre como funciona o sono do bebê de modo geral. Um fluxo que apavora e deixa as mães angustiadas, com medo de estarem fazendo alguma coisa errada é um fluxo perfeito para, depois, vender soluções. Deixar o bebê chorando até dormir, técnicas de abandono, métodos que estão sendo retomados com grande fôlego, como o Cry It Out ou abandonos programados, os quais nós já sabemos que não fazem bem para o bebê, nem fazem bem para a relação mãe-bebê. Então, a principal coisa que uma pessoa que tem um bebê precisa entender sobre sono é que todas as decisões dela vão estar pautadas nesse mundo de informações equivocadas e desencontradas. Quanto mais ela puder fechar os olhos, silenciando essas informações e esse excesso de gente falando, e olhar para o bebê, para as necessidades daquele bebê, melhor fica.

Os bebês são muito diferentes. Cada bebê tem uma necessidade única, um padrão de sono. Apesar deles serem parecidos em relação à fisiologia, eles são diferentes em relação ao temperamento e à família onde eles estão inseridos. Se a gente puder silenciar esse excesso de informação e trazer esse olhar para o bebê e não para milhares de especialistas, tende a ficar muito melhor, muito mais fácil.

E, é claro, se identificar que o bebê tem alguma dificuldade ou que não está conseguindo organizar o sono do bebê sozinho, procurar ajuda com quem realmente sabe o que está falando, com quem tenha formação técnica para tal.

Porque, infelizmente, hoje em dia, nas redes sociais, a gente tem um boom de pessoas se dizendo especialistas, não só no sono, mas em muitas outras coisas, com pouca ou nenhuma formação técnica naquilo que dizem ser especialistas. Isso é um problema do ponto de vista ético e um problema do ponto de vista de estratégias mesmo.

Uma Revista: Quando a gente fala hoje sobre o vínculo materno, a presença do pai (com o aumento gradual da licença-paternidade que foi recentemente sancionado) e toda a importância do primeiro ano de vida do bebê, isso inevitavelmente esbarra em realidades muito diferentes. Especialmente no Brasil, onde muitas mulheres precisam voltar ao trabalho quatro meses após o parto, muitas vezes sem rede de apoio de qualidade, conciliando a exaustão com a culpa enquanto sustentam ou ajudam a sustentar a casa. São mulheres que, não importando se o bebê dormiu à noite, terão de levantar cedo, pegar condução pública e ficar afastadas do bebê durante todo o horário comercial. Elas chegarão em casa cansadas da jornada de trabalho, mas diante da necessidade de conexão com o bebê, fora todos os cuidados. Olhando para isso de forma humana e coletiva, o que você acredita que a sociedade ainda precisa compreender sobre o ato de maternar diante de diferentes realidades socioeconômicas?

Ana Bárbara Jannuzzi: Socialmente falando, é como se a gente estivesse pouco preocupada com o bem-estar materno e do bebê, com o desenvolvimento de vínculo, porque todas as nossas políticas públicas são muito frágeis e muito pouco eficazes quando a gente fala de cuidados para mãe e para o bebê. Não à toa, o mundo inteiro está tendo menos filhos; isso não é só uma realidade brasileira, mas as sociedades que já lidam com isso há mais tempo estão percebendo o problema que é uma sociedade não apoiar mães com bebês pequenos. Estão revisitando suas práticas, mudando licença-maternidade, ampliando licença-paternidade e transformando práticas para que as pessoas possam decidir sobre ter ou não ter filhos sem o medo de não terem apoio do Estado, o apoio necessário.

Então, dito isso, a gente está, sim, em um ambiente muito frágil para esse desenvolvimento da relação mãe-bebê. A gente não pode nunca normalizar, por exemplo, uma amamentação exclusiva durante quatro meses, porque essa é a lei que a gente tem hoje na CLT. A gente sempre precisa brigar por uma licença-maternidade cada vez mais ampliada, expandida para possibilidades de trabalho híbrido ou remoto para mães com crianças pequenas, para a possibilidade de redução de carga de trabalho em um determinado momento da maternidade, para a possibilidade de acompanhar os filhos a consultas médicas, porque isso tudo faz toda a diferença para uma mulher que tem uma criança pequena.

Temos que partir desse lugar, mas, também, partir de um lugar em que, muitas vezes, o excesso de informação sobre o desenvolvimento de uma criança acaba gerando uma onda de culpa nas famílias que não podem dar toda aquela situação perfeita. Se a gente fala, por exemplo, que um bebê deveria estar dormindo por volta de 20h ou 20h30, e a família chega em casa às 20h30, como é que faz? Então, não dá para ter o melhor sono possível? É claro que dá, porque, como diz uma professora minha, Michele Pedrosa, a vida não cabe nos guidelines; a vida não cabe nos livros. É preciso que a gente olhe cada vida individual e entenda como é que aquela família pode fazer da melhor maneira possível.

Se é o bebê dormir um pouquinho mais tarde, então, a gente organiza uma rotina para o bebê dormir bem de dia. Se a família precisa acordar muito mais cedo, que a gente organize uma rotina para essa criança conseguir dormir melhor, dormir com qualidade no tempo que ela tem disponível para dormir. Se é uma família que não tem acesso a todos os recursos alimentares, um prato com cinco cores todos os dias, então, que a gente consiga reduzir o consumo de industrializados através da informação, porque é através da informação que as famílias podem tomar decisões mais conscientes.

Se, no mundo ideal, a criança ficaria mais tempo com a família, mas, no mundo prático, essa criança precisa ir para a creche com três meses porque o retorno daquela mãe ao trabalho está acontecendo muito cedo, que a gente não culpabilize essa mãe com discursos desnecessários, que a gente possa prover a melhor creche, o melhor espaço de cuidado possível, não só para aquela mãe se preocupar com isso, mas para que toda a sociedade se preocupe com esse espaço de cuidado.

Porque, no final, se a gente ficar só no discurso e na teoria, a gente esquece que o mais importante é que as crianças cresçam em lares amorosos, com familiares que são chamados de suficientemente bons, parafraseando Winnicott, que fala da mãe suficientemente boa. Que as crianças tenham uma rede de cuidado que seja suficientemente boa, que seja respeitosa e que seja possível dentro dos diferentes contextos socioeconômicos.

Muitas vezes, muita angústia vem por não poder fazer o que é o melhor, o mais perfeito. Mas o objetivo da nossa maternidade não deveria ser isso; deveria ser fazer o melhor possível com as condições que nós temos.

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