Dia desses fui até uma unidade do Tudo Fácil fazer minha identidade.
Como o nome mesmo diz, sem filas, sem complicações e com a agência quase sempre vazia. Eu era a próxima a ser atendida quando o garoto da mesa ao lado me chamou. Com os papéis em mão e o olhar curioso, perguntou:
— Foi acidente?
— Foi.
— De carro?
— Sim.
Veja bem, eu não gosto de mentir. Mas após todos esses anos, eu aprendi que não é o tipo de conversa breve. Minhas respostas eram curtas, imediatas, pois, a cada resposta, outra dúvida surgia. Que balanço? Que altura? Onde? Como? Por quê? Eu precisava evitar explicações detalhadas, não era o momento nem o local. Você pode pressupor que esse tipo de diálogo exige um certo grau de intimidade. Caso tenha pensado nisso, sim, ela é necessária. Mas o bom senso é uma flor que não cresce no jardim de todos.
Tantas perguntas levariam aquele papo a um desfecho com conclusões nem sempre agradáveis. Eu apenas queria fugir de situações constrangedoras, de ouvir: “Você é tão bonita para estar numa cadeira de rodas…” Sério mesmo? Moço, não temos tempo para que eu explique o que significa capacitismo numa tarde chuvosa, dentro de uma repartição pública. Não me leve a mal, falaremos disso sem problemas, mas vamos precisar de tempo.
Após eu confirmar o suposto acidente, ele passou a divagar sobre a violência no trânsito; eu sempre concordando com o que ele dizia.
Fui encaminhada ao guichê ao lado para tirar as minhas digitais. Dividiam a mesa, dois estagiários adolescentes. O garoto insistiu em me acompanhar, agora eu tinha plateia.
Enquanto o mais jovem escaneava minhas digitais, ele não se conteve e perguntou:
—Isso é.. o nome é parap…
Eu interrompo e digo “tetraplegia”.
— Mas mexe o quê?
— Dos ombros pra cima.
— Foi acidente, né?
— Aham.
— De carro?
— É.
— Foi alta velocidade ou…?
— Alta velocidade.
Eu respondo já rindo, não sei mentir. Sinto meu rosto corar e fico com vontade de gritar que é mentira. Rebato, mantendo o bom humor, e pergunto se respondia um interrogatório. O garoto, sempre sorridente, conta do acidente de carro que sofreu aos 10 anos. Foi salvo pela irmã, que soltou o cinto, pois o carro caiu de uma ponte. Então, o jogo vira, uma culpa me corrói por dentro e eu anuncio a mentira. Explico que fica mais fácil concordar com a teoria do acidente do que explicar a queda do balanço. Mas o garoto é sagaz e, quando percebo, já estou sendo interrogada novamente. As perguntas pelo balanço vêm em sequência, rápidas o suficiente para serem esclarecidas antes que o atendimento termine. A curiosidade humana deveria ser estudada. Quase não consigo perguntar quando retiro a identidade.
Agradeço e vou embora. Quando estou entrando no carro percebo o olhar curioso do taxista estacionado ao lado. Ele se dirige à janela do motorista e já chega com a sentença: “Gelo na nuca”, diz, afirmando que era milagroso. Orienta que era só colocar – gelo na nuca, ele soletra pausadamente – no Google para ver só, curava tudo. Reúno minhas forças para balançar a cabeça concordando. Não quero dar explicações, quero chegar em casa.
No curto retorno, passamos em frente a igreja Universal; por sorte, ficava do outro lado da rua. Ainda bem, porque o ócio criativo eu aguento, sermão da igreja não!
