ENTREVISTA

Bruna Kajiya: A primeira mulher do mundo a fazer a manobra backside 315 no kitesurf, ocupando, hoje, a vice-liderança em etapa do campeonato mundial

Por Clara Jardim

A paulistana Bruna Kajiya é uma força a ser respeitada em escala internacional quando o assunto é kitesurf. Três vezes campeã mundial e cinco vezes campeã brasileira, ela detém o título de primeira mulher do mundo a fazer a manobra backside 315, considerada de grande complexidade e, diziam, impossível para garotas. Hoje, ela ocupa a vice-liderança na etapa da Colômbia do campeonato mundial.

Patrocinada pela RedBull, Mystic e North Kiteboarding, a kitesurfista de 35 anos também é uma importante voz na luta pela igualdade de gênero nos esportes, trazendo atenção às disparidades e abrindo caminhos para outras mulheres desde que começou a competir na água. Como conquistou o seu próprio espaço? Em entrevista à Uma Revista, ela compartilha a sua história e o que ainda deseja mudar na dinâmica das premiações.

Bruna Kajiya treinando em Ilhabela (Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool)

Clara Jardim: Você foi a primeira mulher a realizar a manobra backside 315. Uau! Como chegou nessa experiência e quais foram os maiores desafios?

Bruna Kajiya: Essa foi uma das experiências mais intensas da minha carreira, e teve um significado muito grande para mim, pois nenhuma mulher fazia essas manobras que chamamos de double pass – dois passes de barra. Não acreditavam que era possível uma mulher fazê-las. Decidi abrir essa porta na cabeça das pessoas, para que vejam que, sim, é possível. Nós, mulheres, podemos fazê-las. Foi muito legal, mas demorou meses, e precisou de muita dedicação. Dormia e acordava com bolsa de água quente ou de gelo, dependendo do lugar, e tentei muitas vezes. Cheguei a acreditar que eu não conseguiria. Mas pousar essa manobra foi muito especial, uma experiência linda. E uma jornada que foi maior do que pousar a manobra, pois também foi de me conhecer, empurrar os meus limites e escutar o meu corpo. Aprendi muito.

Clara Jardim: Qual foi sua primeira impressão da disparidade no tratamento dado a homens e a mulheres nas competições de kitesurf?

Bruna Kajiya: Quando cheguei de paraquedas no mundo do kite, isso foi o que mais chamou a minha atenção. As baterias femininas eram muito desvalorizadas. Era um momento que a galera usava para pegar comida ou bebida. Depois, voltavam para, entre aspas, assistir ao que interessava – que eram os homens. Isso me incomodava demais e viraria a minha bandeira. Até hoje, eu luto por isso. Mostrar que as mulheres, sim, têm espaço no esporte e podem ser radicais. Que temos essa força.

Clara Jardim: Hoje, quais mudanças já são sentidas no cenário do kitesurf? E o que precisa mudar de uma vez por todas?

Bruna Kajiya: Nossa, hoje, o kite é outro esporte. Já mudou muito, e isso me traz muito orgulho. Há muito mais mulheres, bem mais espaço para patrocínios, e é uma mudança constante. O que precisa mudar de uma vez por todas – e que eu acho um absurdo ainda não ter mudado – é haver um prêmio igual para mulheres e homens. O surf, o tênis e muitos outros esportes já têm prêmio igual. No kite, as mulheres ganham 50% do que ganham os homens nas competições.

Clara Jardim: Houve momentos em que você teve de ser a sua própria empresária, negociando os seus contratos. Qual o maior aprendizado dessa vivência?

Bruna Kajiya: Sim! Na verdade, durante a minha carreira inteira até uns dois anos atrás, sempre negociei os meus próprios contratos. E isso me trouxe um aprendizado enorme, pois me fez entender o lado das empresas. Como enxergam o atleta, o que precisam, o que é importante e o que não é. Então, aprendi a lidar com essa coisa do atleta associar o valor que a empresa quer pagar com o seu valor. Não tem nada a ver. É uma questão de negócios, marketing. Não é fácil, mas sou grata por ter tido essa experiência porque tenho uma visão 360º do que é um contrato de patrocínio.

“Foi muito legal, mas demorou meses, e precisou de muita dedicação. Dormia e acordava com bolsa de água quente ou de gelo, dependendo do lugar, e tentei muitas vezes. Cheguei a acreditar que eu não conseguiria.” (Foto: Ana Catarina)

Clara Jardim: Você respeitou o seu tempo antes de fazer a cirurgia no joelho porque queria se certificar de que estava fazendo o procedimento certo. Ter certeza das coisas por nós mesmas significa assumirmos o papel principal na história da nossa vida… O que você diria para as meninas que ainda estão na escola, sonhando com objetivos e, talvez, passando por algumas inseguranças?

Bruna Kajiya: Essa pergunta é incrível porque acho que, na escola, quando somos adolescentes, nós ainda estamos nos conhecendo e observando o que é normal – o que os outros fazem. E é fundamental para o desenvolvimento, principalmente das mulheres, escutar-se, ter paciência consigo mesma, dar a si própria o seu tempo. Isso traz uma confiança e um bem-estar que fazem todas as outras coisas na sua vida fluírem melhor. Não é porque te pressionam a ser assim que é o certo para você. Então, se escutem! Tomem o seu tempo! Não há pressa para nada. O momento que é certo para você é o que é certo para você, e o mundo não tem nada a ver com isso.

Clara Jardim: Para terminarmos, pode compartilhar com a gente alguns dos seus planos para 2022?

Bruna Kajiya: Em 2022, o plano é ganhar mundial, é abrir mais espaço para as mulheres no kitesurf, é fazer projetos bonitos. Treinar muito, dar o meu melhor a esse esporte que eu amo. No momento, estou dando esta entrevista da Colômbia, pois vou participar do mundial no começo de março, e esse é o meu primeiro desafio do ano. É isso! Dar o meu melhor e trazer mais e mais atenção à questão das mulheres dentro do kite!