Crônica

O amor, um dia, chega? Leia a nova crônica de Sabrina Ferri: “Foi assim, numa tarde qualquer, que aconteceu; o dia, repito, ela nunca soube.”

Por Sabrina Ferri

Certa vez, em uma viagem, conheci um casal de fotógrafos italianos. Eles rodavam o mundo fazendo retratos de pessoas aleatórias, e foi com eles que eu aprendi a apurar o meu olhar. Passei a registrar as pessoas que chamavam a minha atenção por coisas cotidianas que antes passavam despercebidas.

Fotografar estranhos em lugares distantes nos ensina mais sobre nós do que qualquer autorretrato. Talvez esse tenha sido o motivo para eu nunca esquecer daquela igreja italiana. 

Crédito: Sabrina Ferri

Do alto, a vista era de tirar o fôlego. Eu apreciava o entardecer em Florença quando percebi o jovem casal a olhar a cidade. A cerimônia tinha acabado de acontecer. O chão estava coberto por um tapete branco, como se tivesse chovido arroz instantes antes. “Sposa bagnata, sposa fortunata”, como se diz em bom italiano, pois, com sorte, ninguém brinca, e chuva de arroz é tradição levada a sério em qualquer continente.

Eles pareciam acostumados com os turistas ocasionais e pouco se importavam com a falta de privacidade. Conversavam como se existissem apenas eles, mas não esse romantismo comum à cena, nada disso! Riam alto e gesticulavam como se estivessem em uma mesa de bar. As pessoas devolviam olhares curiosos àquela intimidade afrontosa. Foi de uma beleza única os noivos alheios ao mundo, sem pressa para ir embora. E um dos prazeres de viajar é perceber como os estranhos sentem a cidade, como reagem àquela experiência. O que nunca sabemos é a que lugar eles pertencem, que fronteiras romperam para estarem ali.

Eu andava com a minha máquina fotográfica a tiracolo porque sempre gostei de retratos. Há algo mágico em materializar um momento num pedaço de papel, como se pudéssemos voltar no tempo por infinitas vezes. Hoje, no entanto, as fotografias digitais se repetem na busca pelo melhor ângulo, a melhor luz, perdendo, assim, a naturalidade que, um dia, tiveram.

Anos depois, lembrei do retrato no dia em que o telefone tocou. Do outro lado do oceano, uma amiga que tenho a sorte em preservar, aconteça o que for, não importem os anos. Ela falou trivialidades até chegar onde queria: “Não sei se eu quero me casar. O que eu faço?”, quis saber. Quando a pessoa faz essa pergunta, é porque já tem a resposta e, por isso, não me atrevi a respondê-la. Seguimos falando de coisas cotidianas, como um show ao qual fomos juntas, filmes, viagens a destinos inóspitos e o meu cachorro. Quando percebemos, a pergunta já não fazia mais sentido, ela sabia a resposta.

Depois disso ficamos sem nos falar por algum tempo. Não sei se você, caro leitor, cultiva esse tipo de amizade. Espero que tenha essa sorte – alguns laços são insolúveis à ação do tempo. Meses depois, ela embarcou para um mochilão pelo mundo, sozinha e sem data de retorno. Acompanhei as cidades que ela conhecia através das fotos. Que coisa incrível a fotografia, nos leva para lugares que nunca estivemos, traz para perto quem está longe. Eu a segui viajando de trem, provando comidas exóticas, dançando com estranhos que viravam melhores amigos. E, ali, ela estava perto, vibrante e plena, percorrendo lugares que, um dia, desenhamos em forma de mapa na areia da praia.

Combinamos que, quando algo especial precisasse ser contado, ela mandaria um e-mail — essa versão moderna de carta — porque, sim, existe beleza nas prosas longas. Até que, um dia, a mensagem chegou. Era esperada, por isso, não me surpreendi ao ler as linhas repletas de entusiasmo. A união já havia sido celebrada, e não importava o dia; quando as estrelas se alinham, nunca sabemos ao certo. Inclusive, é curioso  que o ser humano seja tão apegado às datas; são apenas números que seguem uma sequência cronológica entediante e previsível. Quem quer uma vida assim, calculada na régua e no compasso? Por mais que se faça planos, quando a vida nos surpreende, a última coisa que importa são os números. Foi assim, numa tarde qualquer, que aconteceu. O dia, repito, ela nunca soube. Subiu a tal montanha e, quando a trilha revelou mais dela do que da paisagem, lá do alto, foi um vislumbre.

Estava longe, sozinha e nunca esteve tão completa. Comemorou com uma garrafa de vinho, abriu e bebeu no bico – sem tempo para formalidades. O vestido não fez falta, a pergunta não importava mais. “Pessoas são feitas para transbordar”, ela sempre me disse e eu prometi não esquecer.

Não havia mais dúvida alguma. O amor não chega, ele se instala.