Não foi preciso chover por quatro anos, onze meses e dois dias, como escreveu Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão. Nas últimas semanas de setembro, o Rio Grande do Sul foi assolado por um verdadeiro dilúvio. Cidades foram praticamente destruídas. Na enxurrada que percorreu rios até desembocar no Lago Guaíba, uma búfala foi carregada por mais de 100 km. O animal nadou enfrentando a correnteza e intercalou períodos em que se manteve boiando para recuperar forças. Ninguém explica como foi possível sobreviver por tanto tempo dentro d’água, mesmo com a habilidade para nadar por curtos períodos. A búfala é a personificação do povo gaúcho, que vem enfrentando chuvas incessantes e ciclones como jamais foi visto na história. Impossível não lembrar de 1941, quando as águas do Guaíba alcançaram a marca dos 4,76m (a maior registrada até hoje). Embora igualmente devastadora para aqueles que perdem tudo, a enchente de 41 foi ocasionada por 22 dias de chuvas que caíram sem dar trégua. Um fato isolado e muito diferente do que aconteceu agora.
Como no romance de García Márquez, ventos arrancaram telhados e canais foram abertos para escoar a água que caiu do céu. Há momentos em que a vida imita a arte, mesmo nos capítulos mais tristes e catastróficos. O que tem acontecido no Rio Grande do Sul é um fenômeno climático. Vivemos uma era de catástrofes ambientais: enquanto o céu verte água no sul do Brasil, o resto do país enfrenta uma onda de calor que submete cidades a temperaturas nunca antes registradas.
Quando o Brasil sediou a ECO 92, eu estava na escola. A professora de ciências organizou um grande debate sobre ecologia. Na época, a principal preocupação era a degradação do meio ambiente causada pelo homem, principalmente o buraco na camada de ozônio e o seu aumento significativo devido ao uso dos sprays com CFC. Estamos falando de uma era que antecede a internet, os meios de informação eram as revistas, os jornais e a televisão. Os ecologistas fizeram valer seus esforços e acenderam um alerta global espalhando aos quatro cantos o perigo dos CloroFluorCarbonetos, conhecidos como CFC. Uma onda de protestos tomou o mundo, e a camada de ozônio se tornou o maior ícone da luta pela preservação ambiental da época. Acompanhando de perto o assunto, joguei fora os sprays de laquê da minha mãe e incentivei que minhas colegas fizessem o mesmo. Eu acreditava estar fazendo minha parte no mundo, embora, em casa, nunca tenha assumido a culpa pelo sumiço dos sprays, e assisti, em silêncio, a procura desesperada de minha mãe com os cabelos desmaiados. Tudo em nome da ecologia.
Já era adulta quando assisti Uma Verdade Inconveniente, vencedor do Oscar de melhor documentário em 2007. O mundo testemunhou em choque o resultado das alterações climáticas promovidas pelo homem, que resultou em um prêmio Nobel da Paz para o ambientalista Al Gore, ex-vice-presidente de Bill Clinton. A discussão foi elevada a um patamar jamais visto através da verdade que os corajosos cientistas trouxeram aos olhos do mundo. O conceito de desenvolvimento sustentável foi trazido à tona, e com a visibilidade dos prêmios recebidos, promoveu debates sobre o cenário ambiental em diversos lugares do mundo.
Se os dias chuvosos que transformaram Porto Alegre em Macondo estivessem em um livro, chamaríamos de realismo fantástico. Um dilúvio capaz de arrastar animais deveria fazer parte de uma ficção distante, embora já esboce contornos de realidade. Fenômenos como longos períodos de estiagem, inundações, queimadas, ondas de calor e frio extremo, desmatamento, gases de efeito estufa, queima de combustíveis fósseis e derretimento das calotas polares, são consequências do caos climático que açoita o mundo nas últimas décadas. Mas as previsões do documentário não são uma ciência exata. Para enfrentar a fúria da natureza dependemos de uma rígida política ambiental e acordos internacionais. Questionar nossos hábitos, desde o simples uso de sprays aerossóis, são escolhas que podem fazer a diferença para romper padrões de desrespeito ao meio ambiente.
Foto: Carolina Leipnitz



