Tus Hijos: “Porque uns nascem flecha, outros arqueiro.” Leia a crônica de Sabrina Ferri

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Quando criança, eu era fascinada por um quadro com um poema de Khalil Gibran. Ficava pendurado no corredor, próximo ao meu quarto, e a curiosidade acompanhou meu crescimento sem que eu fizesse ideia do que o poema dizia. Então, imaginava histórias onde eu colhia margaridas que exalavam seu perfume no curso do vento, como a garota do quadro.

Elas também existiam no meu jardim.
Eram as margaridas do poeta.
Perguntei sobre elas, antes mesmo de saber ler.
“Um poema”, me disseram.
Mas as palavras escritas ali, eu queria tê-las para mim.

Ao completar 6 anos, iniciei a primeira série. Lembro bem da ânsia que eu sentia para ler as coisas ao meu entorno. Os livros da Agatha Christie, Meu Pé de Laranja Lima, letreiros de lanchonete, cartas, anúncios, revistas: eu queria saber tudo e sentia um poder enorme em compreender as palavras do mundo. Perguntei à minha mãe o que eu aprenderia primeiro: ler ou escrever, e arranquei gargalhadas com a inocente pergunta. A explicação não me convenceu, eu achava difícil dominar um feito de tamanha magnitude, e temia não conseguir. Apesar de estar fascinada por ambas, ler, naquele momento, era para mim um passaporte para o mundo.

Cresci rodeada por livros — ser filha caçula tem suas vantagens — pais maduros acumulam histórias e fotos que contam quem somos. E para as outras, existem os livros.

O poema escrito em espanhol me desafiava. Decidida a fazer minha primeira tradução, fui até a biblioteca do meu pai e pesquisei no dicionário o significado de Tus Hijos. Depois, com as palavras que havia descoberto, traduzi um pedaço do poema. Mesmo assim, demorei muito para compreender o verdadeiro sentido daquelas palavras. Acho que até hoje aprendo com elas, e tenho certeza de que minha mãe seguiu ressignificando aquele poema.

Porque uns nascem flecha, outros arqueiro.
E é necessária uma vida para tal entendimento.

Hoje percebo como aquele quadro pautou minha criação, e mesmo que minha geração não seja a mesma de meus irmãos, sei que nossa liberdade para trilhar a transição entre infância e juventude foi composta pelos mais belos exemplos: nossos pais.

Segue o poema de Khalil Gibran em espanhol, como no quadro, para que faças tua própria tradução, com o dicionário empoeirado que habita um canto da tua casa.

Tus Hijos

Tus hijos no son tus hijos,
son hijos e hijas de la vida,
deseosa de sí misma.
No vienen de ti,
sino a través de ti,
y aunque estén contigo,
no te pertenecen.
Puedes darles tu amor,
pero no tus pensamientos,
pues ellos tienen sus propios pensamientos.
Puedes abrigar sus cuerpos,
pero no sus almas,
porque ellos
viven en la casa del mañana,
que no puedes visitar,
ni siquiera en sueños.
Puedes esforzarte en ser como ellos,
pero no procures hacerles semejantes a ti,
porque la vida no retrocede ni se detiene en el ayer.
Tú eres el arco del cual tus hijos,
como flechas vivas,
son lanzados.
Deja que la inclinación,
en tu mano de arquero,
sea para la felicidad.

Khalil Gibran, ensaísta, filósofo e poeta libanês.

O quadro e eu, aos 5 meses.

Anos mais tarde, com as margaridas do poeta.

Peço licença para dedicar essas palavras aos meus pais e irmãos. Dando créditos à fotografa que fez os afetuosos registros, sem os quais não existiriam essas palavras: Mana Jaque.

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