Crônica de Sabrina Ferri destrincha produção da Netflix e traz curiosidades: “Durante décadas, Cem Anos de Solidão pareceu um livro impossível de adaptar para o cinema…”

Written by:

Durante décadas, Cem Anos de Solidão pareceu um livro impossível de adaptar para o cinema. O impasse partia do próprio García Márquez, que recusou inúmeras propostas enquanto esteve vivo. O problema não seria apenas materializar Macondo, mas encontrar uma linguagem capaz de preservar em imagens a força arrebatadora das palavras do autor.

Em 2019 a Netflix anunciou o audacioso projeto que transformou o livro em uma série de 16 episódios. Um trailer dizendo apenas “Bienvenidos a Macondo”, com Borboletas amarelas ao fundo, não revelava absolutamente nada sobre a adaptação. Esperei um novo anúncio durante meses, vasculhei a internet atrás de alguma informação e cogitei até que fosse pegadinha da gigante vermelha dos streamings. Com a chegada da pandemia, em 2020, puxei da estante o livro que havia lido na minha adolescência. Que felicidade reencontrar os Buendía, agora com o olhar de uma mulher adulta. As críticas sociais do livro faziam ainda mais sentido e o realismo fantástico não parecia tão fantástico assim, comparado ao período assustador que nos mantinha em quarentena enquanto os meses passavam, lembrando como fizera Fernanda del Carpio ao manter Aureliano Babilônia preso em casa, na companhia exclusiva dos livros.

Caso você ainda não tenha lido, Cem Anos de Solidão retrata a saga de sete gerações da família Buendía, onde nomes se repetem presos a uma história recheada de amores, erros e tragédias. Garcia Márquez trouxe acontecimentos reais para apresentar uma metáfora cheia de magia sobre a história latino-americana.

Macondo expõe em suas guerras um povo marcado pela violência, à mercê de injustiças e da exploração econômica. Mesmo sendo um lugar fictício, os conflitos que o atravessam são profundamente reais e se repetem até os dias de hoje, a ponto de não nos surpreendermos com nada. A história do Coronel Aureliano Buendía, que nasce de um carismático revolucionário de espírito anarquista, cuja glória e desgraça acompanha o declínio de um homem corrompido pelo poder, é a que mais me fascina. É o legado da famosa frase que nos amaldiçoa quando diz que, ao não conhecermos nossa história, estamos fadados a cometer os erros do passado. Uma fala tão marcante que poderia ter saído da boca do próprio escritor.

O Massacre das Bananeiras, um episódio real da história colombiana e uma das sequências mais devastadoras da adaptação, reconta a chegada de uma companhia americana como promessa de progresso, mas que resulta apenas em exploração e desigualdade. Tanto na ficção como na realidade, o desfecho trágico foi uma chacina que sofreu apagamento e que só pode ser conhecida através da literatura como forma de reparação histórica.
A memória é tão concreta e ao mesmo tempo tão devastadora quanto o esquecimento. Em Macondo, passado e presente não obedecem exatamente à lógica do calendário. É aí que está uma das forças do romance e também um dos maiores desafios de sua adaptação. Ao filmar o insólito sem transformá-lo em espetáculo, a série encontra sentido mantendo presente o narrador onisciente do livro. É ele quem nos conduz por acontecimentos que, vistos de fora, poderiam parecer absurdos, mas que, em Macondo, são tratados com a naturalidade do cotidiano.

Essa escolha foi fundamental porque García Márquez nunca pediu ao leitor que escolhesse entre a realidade e a ficção. Em Macondo, elas convergem. Os mortos podem permanecer entre os vivos, uma chuva pode se prolongar por anos, uma mulher pode desaparecer levada aos céus e ninguém precisa parar a narrativa para explicar que aquilo não deveria acontecer. A adaptação compreendeu que não bastava reproduzir esses acontecimentos. Era preciso preservar o olhar diante deles. Talvez esteja aí o verdadeiro desafio de trazer Cem Anos de Solidão para as telas, fazer com que o espectador aceite enxergá-la como seus habitantes a enxergam. Um lugar onde a memória e o esquecimento, o poder e a violência, o amor e a solidão se misturam ao fantástico e onde aquilo que parece impossível pode ser apenas mais uma forma de realidade.

Curiosidades sobre Cem Anos de Solidão:

• Publicado em 1967, Cem Anos de Solidão vendeu mais de 50 milhões de exemplares e foi traduzido para mais de 40 idiomas. É considerado por muitos o maior romance do século XX.
• A série produzida pela Netflix tem 16 episódios e foi inteiramente filmada na Colômbia, em espanhol.
• Segundo a imprensa colombiana, a Netflix investiu cerca de US$ 50 milhões (mais de R$ 300 milhões) no projeto.
• O casting recebeu mais de 10 mil candidatos. A maioria nunca havia atuado.
• Uma cidade cenográfica de mais de 540 mil metros quadrados foi construída em Alvarado, na Colômbia, para recriar Macondo.
• Cerca de 150 artesões locais confeccionaram objetos cenográficos para reproduzir a época com o máximo de fidelidade.
• A casa da família Buendía tinha 1750 m²; a produção também recriou os jardins da morada e da cidade com centenas de plantas.
• Para representar as transformações da cidade e da família ao longo das décadas, a direção de arte estudou a arquitetura colombiana e garimpou móveis e objetos da época.
• A série contou com cerca de 70 mil peças de vestuário, confeccionadas para representar as diferentes gerações e períodos históricos.
• O trem que conecta Macondo ao mundo também ganhou forma na adaptação, com a construção de um trem e de trilhos para as filmagens.
• Rodrigo García e Gonzalo García Barcha, filhos do escritor, atuaram como produtores executivos e consultores da série.
• Dado histórico: em dezembro de 1928, trabalhadores entraram em greve para reivindicar melhores condições de trabalho contra a empresa Americana United Fruit Company. O Exército colombiano reprimiu violentamente a mobilização, provocando um número de mortes que permanece controverso. O episódio trágico ficou conhecido como O Massacre das Bananeiras.

Texto de Sabrina Ferri

Crédito da imagem: Divulgação / Netflix

Deixe um comentário