Dopamina, obsessão cultural e sobrevivência: nove em 10 dos livros mais vendidos no Reino Unido trazem o assassinato de uma mulher em sua trama

Written by:

A escritora britânica Wendy Jones fez um levantamento recentemente repercutido pelo The Guardian, revelando que nove de cada 10 livros de ficção mais vendidos na lista do Sunday Times, no Reino Unido, têm uma coisa em comum. E vem a ser o assassinato de uma mulher na sua trama.

Isso me lembra do livro de uma norte-americana chamada Alice Bolin (Dead Girls: Essays on Surviving an American Obsession, lançado originalmente em 2018), que traz uma coletânea de ensaios sobre o que seria uma obsessão popular com histórias de mulheres que são abusadas, assassinadas ou silenciadas. E isso vale tanto para obras sobre crimes reais quanto para a ficção.

Mas sabemos que, estatisticamente, as mulheres são as maiores consumidoras de True Crime, e isso vale para histórias fictícias sobre crimes também! Não à toa, os streamings estão recheados dessas produções.

Muito além do TOP 10 da Netflix, o True Crime especificamente também está presente em uma infinidade de podcasts populares e vídeos do You Tube com milhares de seguidores, sem falar nos perfis voltados para o nicho no Tik Tok e no Instagram. Estamos falando de um verdadeiro motor comercial da indústria do entretenimento, e vale uma reflexão sobre o seu enorme sucesso. Qual o motivo para ele?

Uma das pessoas que me ajudaram a entender a rentabilidade do gênero foi ninguém mais ninguém menos do que Rafael Rowe, o apresentador de Por Dentro das Prisões Mais Severas do Mundo, série documental que já conta com sete temporadas disponíveis na Netflix.

Um rápido parênteses para contextualizar: a cada episódio, Raphael mergulha na realidade de um presídio específico ao redor do mundo, incluindo Brasil, República Tcheca, Finlândia, Colômbia, África do Sul, Alemanha, Bósnia, Groenlândia, entre muitos outros países. Cara a cara com presidiários (incluindo assassinos em série), Rafael desenvolve conversas bastante diretas. Ele próprio já esteve dentro do universo do cárcere de uma maneira muito pessoal, fato que o torna um apresentador ainda mais interessante; em 1988, aos 20 anos, foi sentenciado à prisão perpétua por um crime que não cometeu, só tendo a sua condenação anulada depois de 12 anos encarcerado.

Ao entrevistá-lo para a Uma Revista, aproveitei para escutar a sua percepção dos motivos que levam tanta gente a buscar conteúdo sobre crimes, julgamentos e o sistema prisional.

Quanto ao sucesso da série, ele reitera que presídios são lugares secretos. A maior parte da população não tem contato ou relação com eles e os enxerga como um universo misterioso, onde pessoas ficam trancadas por trás de grandes muros, apenas ouvindo falar do que acontece lá dentro.

Então, Raphael cita o fator mídia que, na sua visão, sempre ajudou a fomentar a curiosidade com noticiários que falam sobre crimes diariamente.

Ele acrescenta, por fim, um aspecto contrastante: quando assistimos a uma série como Por Dentro das Prisões Mais Severas, acompanhamos uma jornada perigosa, mas a verdade é que estamos confortáveis e seguros no sofá da nossa casa.

Esse contraste é biológico! Por quê assistimos a filmes de terror, por exemplo? A neurociência e a neurobiologia do medo explicam: nosso cérebro interpreta o susto como uma ameaça real, liberando adrenalina e cortisol; uma vez que a ameaça passa, a tensão se converte em euforia, e o corpo acaba por liberar dopamina e endorfina, provocando sensações de prazer e de alívio.

Então, colocando uma lente de aumento no sucesso do True Crime, esbarramos com o público feminino em peso. Existem teorias para essa popularidade, e a principal pode estar em um artigo, publicado há bastante tempo, em um jornal de psicologia social e ciência da personalidade, com o título de Capturadas por True Crime: por que as mulheres são atraídas por histórias de estupro, assassinato e assassinos em série?

Olhe que curioso: dois professores do departamento de psicologia da Universidade de Illinois, Amanda Vicary e Chris Fraley, chegaram à conclusão de que esse interesse se baseia primordialmente em medo. Como se, tomando conhecimento de histórias sobre crimes reais, muitas mulheres se sentissem um passo à frente do perigo. Algo como: “Se fosse comigo, eu saberia o que fazer”. É por isso também que, quando esse tipo de conteúdo traz uma mulher como vítima, maior acaba sendo a identificação do público feminino.

E é fato que, quando nos atentamos a essas histórias, acumulamos alguma experiência delas. Há passagens na obra da autora Ann Rule (fãs de True Crime que chegaram até aqui certamente a conhecem) sobre o ato de sobreviver. Já na introdução do livro Ted Bundy, O Estranho ao Meu Lado, ela deixa um recado:

“Enquanto escrevo essas recordações de mulheres que sobreviveram, espero que minhas leitoras percebam porque elas sobreviveram. Elas gritaram. Elas lutaram. Fecharam a porta na cara de um estranho. Correram. Elas duvidaram de histórias lisonjeiras. Perceberam falhas nas histórias. Elas tiveram bastante sorte por alguém ter aparecido e as protegido.”

A que conclusão chego?

Se tantas mulheres estão atrás de livros, séries e podcasts sobre crimes reais, é possível que estejam obtendo algum benefício maior do que uma simples dose de dopamina, e o mote da sobrevivência se torna uma reflexão por si só.

Deixe um comentário