Um enigma maior do que Capitu? Socorro de Assis, autora de “Eu, Capitu” comenta sobre a charada do narrador em Dom Casmurro

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Sempre achei que o maior mistério da nossa literatura fosse a Capitu de Machado de Assis, isso até conversar com a autora de “Eu, Capitu”, Socorro de Assis, que é doutora em Teoria Literária pela PUCRS.

Socorro é uma apaixonada pela obra de Machado de Assis, e trouxe para mim um registro que vale o tempo de quem aprecia bons mistérios…

Ela explica didaticamente: com todo o sucesso e a trajetória histórica de Dom Casmurro, imaginou-se que o grande mistério do romance giraria em torno de Capitu, uma personagem emblemática, principalmente por questões de gênero. Tão bem construído o seu enigma, este ficou à flor da pele, deixando em segundo plano o que Socorro considera o maior mistério guardado no livro de Machado.

Uma norte-americana chamada Helen Caldwell (1904–1987), conta Socorro, debruçou-se a entender o que era aquele mistério de fato e concluiu que Capitu seria a metáfora estética. A metáfora da beleza, que cai facilmente na boca do povo justamente pelas questões que giram em torno de Capitu. E que bela metáfora, acrescenta Socorro! Afinal, Capitu é aquela mulher acusada, que não tem voz. Mas, na verdade, Machado era um observador do Brasil. Sendo um narrador muitíssimo competente, ele estava fazendo, no Dom Casamurro, uma crítica sociológica; e uma crítica muito pertinente às visões da corte brasileira, querendo, por imitação à corte (e macaqueando cortes em geral), criar uma natureza fingida. Sim, uma vida de fingimento para o brasileiro. O seu faz-de-conta, o seu mise-en-scène.

Por isso, antes de qualquer coisa, Machado é um crítico da sociedade brasileira e de todos os seus problemas, afirma Socorro. A mulher entra neste percurso, e o autor supervaloriza a crítica que faz sobre a condição da mulher. Mas o mesmo autor também critica as classes sociais e a escravatura. Socorro reitera: dizem que Machado era escravagista, e isso é uma mentira; trata-se do contrário.

Como ele faz essas críticas na obra? Machado se reveste de um narrador que tenta persuadir o seu leitor, estabelecendo em sua narrativa alguns charmes e, também, algumas provocações. E ele faz o mesmo com personagens de outras histórias, como Quincas Borba, O Alienista e Memórias Póstumas de Brás Cubas, a obra essencial.

Machado é o narrador que vai pactuar com o leitor, jogando lacunas em suas narrativas. Em Dom Casmurro, Bentinho conta a história como se soubesse tudo, mas ele não sabe, e está sempre pondo em dúvida as atitudes de Capitu. Ele conclui por acusar Capitu, raciocinando com o leitor em um trabalho de persuasão narrativa. E convence o leitor de que o que ele está dizendo é a verdade. O leitor não percebe o engodo, pois isso está camuflado tão bem como nenhum outro narrador tinha feito, explana Socorro de um jeito que só ela…

Assim, Socorro ilustra como Helen Caldwell desvendou esse narrador que briga, que pactua, sacaneia, escamoteia… Que está na narrativa como um personagem e um narrador superior. Enquanto fala da beleza da Moça dos Olhos Redondos, da ninfa mitológica, o narrador de Dom Casmurro também afirma que a Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, é um palco de fingimentos. E o diz de formas tão sutis que o leitor não aterriza. Ou seja, Machado é um narrador muito, muito enrustido para alfinetar melhor e para fazer a sua narrativa ter toda a credibilidade possível.

Socorro destaca que existem inúmeros estudos interessantíssimos sobre Machado de Assis. Nomes como Antônio Cândido, Roberto Schwarz e Luiz Costa Lima já mergulharam na obra de Machado algum dia.

Dito isso, ela explica que, do ponto de vista da literatura, o enigma do narrador de Dom Casmurro é ainda mais valioso do que as dúvidas sobre Capitu. Mas no que essa conversa com Socorro me faz pensar? Na sabedoria popular de que, “quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”. E que Capitu, como um cavalo de Tróia, nos desvenda mais mistérios do que impõe…

Foto: Maria Fernanda Cândido na minissérie Capitu.

Crédito: Reprodução

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