Diários importam: por trás da polêmica de Tamara Klink, os diários de bordo e o quanto nossa vida é interessante além das navegações

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Para quem não sabe, no início de agosto, Tamara Klink protagonizou uma polêmica no universo editorial depois de dar certa declaração no seu Instagram. Em resumo, o que ela realmente disse no vídeo foi pedir para que as pessoas não comprassem o seu livro Bom Dia, Inverno; em vez disso, Tamara incentivava que o buscassem em bibliotecas e na circulação dos exemplares já produzidos (doação e empréstimo), devido ao impacto ambiental da produção de livros. E a resposta à sua fala foi barulhenta, com direito a críticas acadêmicas, especulação quanto ao marketing envolto nisso e algumas defesas que colocam tudo em perspectiva.

Dias depois, Tamara apagou o vídeo e se retratou, explicando que havia errado por não enxergar a questão por outros pontos de vista e reiterando que precisamos da leitura e de autores pequenos, grandes e independentes. Na sequência, seu livro dobrou a expectativa de vendas.

E eu aproveito essa deixa do Bom Dia, Inverno, que começou a ser escrito como um diário de bordo (quando ela passou uma invernagem em seu veleiro na Groenlândia), para falar dos diários da família Klink. No quanto são inspiradores além de qualquer expedição.

Em 2020, entrevistei o pai de Tamara, Amyr Klink, e conversamos justamente sobre isso: o hábito de escrever em um diário, algo que ele passou para as filhas. Em alto mar, as meninas Klink escreveram diários desde pequenas, aprendendo a habitar as próprias histórias, e imagino a importância que isso deve ter tido na formação delas.

“Elas tinham entre cinco e oito anos quando a Marina disse ‘chega de viajar sozinho, agora nós iremos juntos’, mas havia uma condição. Para viajarem com o pai, tinham de manter um diário todos os dias, como um dever de casa. Reclamaram no começo, ‘tô com preguiça’. Queriam brincar na neve. Mas foi um dever que se transformou em um hábito regular, e acho que foi muito bom para elas”, conta Amyr.

Ele relembra uma passagem marcante da sua adolescência: “Quando eu era moleque, mais ou menos aos 16 anos, estava viajando pela Europa e não tinha dinheiro para ficar em hotel, então, dormia no trem, e o nosso trem atropelou um trator. Ficamos dois dias parados na linha férrea esperando o conserto dos trilhos. Dentro do trem, havia crianças de duas escolas. Tinham de 10 a 12 anos, menores que eu. E fiquei impressionado porque, de repente, elas paravam de brincar e iam para as poltronas escrever um diário. Tinham um horário para isso, e os coordenadores as chamavam. Esse é um hábito que infelizmente não temos no Brasil. E acho que ajuda muito na capacidade de nos expressarmos de maneira engraçada, concisa e correta. Essa história dos diários é muito interessante, e demorei um bocado de tempo para perceber a importância”.

Ele destaca: “O que tento explicar para as pessoas que conheço é que você não precisa ter uma vida maluca, de aventureiro para ter histórias interessantes. Tudo o que você viveu hoje, se ler a respeito disso daqui a um ano, vai ser muito interessante para você mesma. Todos os relatos de todas as pessoas são relevantes, é só uma questão de tempo. Você vai olhar para trás e dizer: ‘Nossa, que ano maluco’. Todo mundo terá uma experiência diferente e única”.

Comento com Amyr sobre uma fala recorrente sua, que é a necessidade de uma pessoa protagonizar a própria história em vez de apenas observar as histórias dos outros, e ele discorre sobre isso: “Essa questão do diário reforça muito isso. É bacana ler sobre outras experiências? É bacana. Ler ficção? Também. Mas é muito bacana quando você, pouco a pouco, vai escrevendo a sua própria história. Na navegação, a gente é legalmente obrigado a preencher um diário. É tradição. Todo mundo faz, por exemplo, por questões de astronomia, anotações meteorológicas (…).”

Nesta mesma entrevista, Amyr explica que foi através dos diários em todos os navios do mundo que se fundou o primeiro banco de dados global, isso séculos atrás. “Todos os comandantes de navios do mundo registravam a direção do vento, a intensidade, a altura das ondas nos diários. E um tenente americano criou as pilot charts, que eram bancos estatísticos onde ele organizou essas informações por coordenadas. Latitude, longitude e época do ano. Assim, foram descobrindo as variações sazonais das correntes, dos anticiclones (…).”

Ele encerra me contando que o seu diário é difícil de entender, cheio de números e desenhos, e que nem sempre dava tempo de compor frases inteiras, mas que os seus registros foram uma referência e tanto para que ele escrevesse livros depois.

Hoje, traço um paralelo com a filha Tamara que, além de escrever diários durante a invernagem, também gravou áudios com reflexões, o som do gelo e de toda a natureza ao redor. Penso na riqueza de detalhes que ela teve como material para compor o livro! Mais do que isso, na riqueza das suas próprias impressões, e nem é por tê-las concebido no isolamento de um fiorde, mas porque as concebeu em seus 27 anos. Recordações que ela poderá revisitar décadas depois, na idade que tiver.

E penso que, assim, os diários não só nos lembram do que nos aconteceu, mas também nos guiam rumo a futuros. Eles nos dão coragem, fôlego… E mostram que viver, a despeito das longitudes, sempre será o maior projeto.

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