Por um erro da empresa que vendia os ingressos para o Gala Concert, minha amiga e eu fomos parar na fileira do gargalo no The Moscow Ballet, em Porto Alegre, no último domingo. Nossos lugares originais eram um pouco para trás, bem no meio para termos o conceito completo das coreografias, o que minha amiga chama, com razão, de “os melhores assentos do mundo”.
Mas… Confesso que fiquei feliz por sentar na primeira fileira.
Coladas à borda do palco, acessamos um território bastante único: o rosto dos bailarinos e cada nuance da sua expressão. No caso de uma bailarina como Oksana Bondareva, considerada uma das mais expressivas da sua geração, essa perspectiva é ainda mais envolvente.
Porque, assistindo da primeira fileira, a gente entende como os rostos também dançam, e que certas danças existem apenas no rosto de quem está executando um fouetté en tournant. Microssegundos revelam olhos que fazem força, sorrisos que são de dor e até a troca entre um casal de bailarinos sem que seja preciso dizerem uma palavra.
Os pés machucados e a pele das costas quase transparente sobre os músculos e os tendões da vida no palco também são confidências visuais para quem está nas primeiras fileiras. Quando os olhos estão perto, a gente se aproxima do artista de uma maneira muito humana…
Agora, me chame de louca por traçar um paralelo tão contrastante (ou nem tanto?), mas é esse mesmo acesso às expressões do rosto no calor do momento que me faz assistir a algumas lutas do Ultimate Fighting Championship. E eu explico!
Ao contrário dos jogos em que só enxergamos os jogadores de muito longe, a câmera de um combate nos permite essa proximidade, e a gente consegue perscrutar a aura de quem está no octógono. Quem entra com o olhar mais confiante, quem cumprimenta o adversário ou quem provoca como se fosse o inimigo. A cara de quem perde (muito mais do que a de quem ganha) revela entranhas que, por vezes, nos levam a torcer por aquele atleta para valer.
No palco e no octógono, tudo pode acontecer. Há riscos, como despencar durante um pas de deux ou ser nocauteado, mesmo detendo um cinturão. E, por trás de qualquer persona, uma pessoa de carne e osso sempre estará exposta ao imprevisível.
Em suma, as sutilezas que captamos quando olhamos mais de perto, seja na arte, no esporte ou na vida, nos trazem narrativas íntimas, menos óbvias. Elas valem a pena. Valem o tempo e o desconforto que algumas proximidades nos causam, nem que seja um mal jeito no pescoço diante de um palco logo em frente… Porque, mais do que intimidade, essas “primeiras fileiras” sempre nos darão um lampejo sobre como viver, em tempo real, é um eterno improviso.



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