Eu adoro debates. E um duelo entre os legados de Jane Austen e Emily Brontë no You Tube, encabeçado por duas pessoas talentosamente instruídas sobre elas, foi um entretenimento perfeito para mim.
Vou ter que falar sobre ele aqui!
De um lado, o professor John Mullan, especialista em literatura inglesa e autor de What Matters in Jane Austen? Twenty Crucial Puzzles Solved defendendo os livros da própria. De outro, a autora bestseller Kate Mosse falando a favor do único livro escrito por Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes. No mesmo palco, quatro atores teatralizando passagens das obras segundo a demanda dos debatentes. E uma plateia de leitores fiéis de cada escritora (ou de ambas).
São quase duas horas de debate, incluindo a votação do público no final.
Depois de assistir, não posso dizer que mudei de ideia sobre a minha predileção. Ela continua essencialmente a mesma, só que com novas informações e pontos de vista.
O que realmente me tocou, de maneira inesperada, foi a devoção de Kate Mosse ao interceder por Emily Brontë.
Mais do que com amor, ela fala com gratidão. Diz que se tornou escritora graças ao estímulo que obteve na leitura de O Morro dos Ventos Uivantes. Com o livro na mão, Kate ganha o debate na paixão, levando em conta que a vitória nem sempre vai para o lado com o maior número de argumentos, mas para quem expõe sua visão com a maior entrega.
É divertido vê-los disputar afeição para a sua respectiva protegida, degladiando-se em uma discussão anterior aos estilos narrativos, muito mais simples do que isso: uma questão de gosto. Há quem adore comédias românticas perspicazes; há quem prefira o abismo dramático de almas penadas.
Certa vez, Virgínia Woolf declarou que Austen era a melhor. Já a mediadora do debate lembra um comentário do americano Mark Twain: “Eu não tenho o direito de criticar livros e não critico, exceto quando eu os odeio. Muitas vezes, quero criticar Jane Austen, mas seus livros me enfurecem tanto que eu não consigo esconder minha fúria dos leitores; portanto, preciso parar sempre que começo. Toda vez que leio Orgulho e Preconceito, quero cavar Jane Austen para fora do túmulo e bater no seu crânio usando o próprio osso da sua bochecha”.
Orgulho e Preconceito é, sem sombra de dúvida, um dos meus livros favoritos, mas confesso que ri.
Para John Mullan, os livros de Jane Austen são muito mais do que mulheres tentando casar. É uma crítica social em prosa e com humor inglês. As tramas têm uma ironia sofisticada, as descrições são poéticas e algumas de suas personagens fúteis e insuportáveis têm os trechos mais deliciosos, pois divertem o leitor a ponto de fazê-lo rir em voz alta.
Para Kate Mosse, o único livro de Emily Brontë foi o suficiente ao mostrar a que veio. O Morro dos Ventos Uivantes permite que as personagens masculinas amem, chorem e sofram da mesma forma que as femininas, sem distinções. A espiritualidade e o destemor marcam forte presença na obra de Emily, tanto no livro quanto em poesias como No coward soul is mine (falando nela, é linda). Com uma trama sobre obsessão, assombração e luto, a escritora também provou que mulheres podiam narrar o pior do ser humano tão bem quanto os homens o faziam.
Ainda fico com Jane Austen e a sua excepcional capacidade de percepção, que ela sabia colocar no papel como ninguém. E, ao ler seus livros, senti que realmente conhecia algumas daquelas figuras…
Além disso, que adaptações para o cinema, hein?
Menção mais do que honrosa para o roteiro de Emma Thompson em 1995, que beira à perfeição.
Já uma tragédia como O Morro nos faz acreditar em fantasmas, tamanho o talento da autora ao narrar o envolvimento de indivíduos egoístas e vingativos. Como eles se fecham em um mundo próprio e abandonam a razão. A paixão dos protagonistas não é nada como a de Romeu e Julieta, por exemplo. Catherine e Heathcliff estão mais para o resto dos Montéquios e dos Capuletos, pois desperdiçam uma vida se detestando.
Enfim, vamos aos resultados?
Antes da apresentação de John e Kate, 55% da platéia preferia Austen, 24% optava por Brontë, e 21% estava em cima do muro. No fim, Jane reduziu a predileção, mas manteve a vitória numérica de 51% do público. Já Emily arrebatou os indecisos subindo para 47%.
Ao fim do vídeo, Kate Mosse generosamente afirma que ambas haviam vencido, mas concordo com o comentário que John Mullan faz logo depois: “Não, Jane Austen e Kate venceram”.
Tenho certeza de que, assim como eu, os hesitantes podem ter se apaixonado muito mais pelos argumentos impetuosos de Kate do que pela própria Emily Brontë.
E, em tempos de polarização, um embate de ideias, com resultado dividido, respeitoso e cheio de admiração mútua entre os debatentes é o tipo de conversa que só faz bem.
LEMBRETE: novas adaptações à vista. Razão e Sensibilidade chega aos cinemas em outubro e Orgulho e Preconceito estreia na Netflix ainda em 2026.



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