São raras as vezes em que o rei da Inglaterra se manifesta sobre algum ataque à sua história pessoal, e a ocasião do lançamento de Swan Song foi uma delas.
Diz a nota do Palácio de Buckingham: “Embora, por princípio, não façamos comentários sobre livros, Sua Majestade está ciente de que a dor do luto fraterno pode obscurecer a razão, afetar o julgamento e colorir a memória de maneiras que outras pessoas não reconhecem, mesmo muitos anos depois de tal perda”.
A nota em si causa tanto alvoroço quanto o livro, já que a família real britânica é adepta do “nunca reclame, nunca explique”, um mantra de comportamento sólido e constante ao longo da sua história com a mídia. Significa que somente um ataque muito grave à sua reputação ganha resposta; no mais, silêncio.
Mas vamos ao livro em questão: Swan Song (ou Canção do Cisne) foi escrito por Charles Spencer, irmão caçula da icônica Lady Di, que foi Princesa de Gales de 1981 a 1996, e promete ser um relato definitivo sobre ela, trazendo detalhes sobre a sua infância, o turbulento casamento com o então herdeiro do trono britânico e a sua morte aos 36 anos, em 1997.
Um parênteses: Charles Spencer é historiador e escritor de carreira, além de earl (título herdado de seu pai, que equivale a um conde), sendo a família Spencer uma das mais tradicionais da aristocracia. A própria Diana, por ser filha de um earl, tinha direito a usar o prefixo lady desde os seus 14 anos.
E, para quem não era nascido nos anos de 1980 e 1990, uma recapitulação necessária: Diana foi uma estrela global, a mulher mais fotografada da qual se tinha registro em uma era pré-iphone e redes sociais. Em capas de revistas e pela TV, ela povoou o imaginário dos súditos e de curiosos ao redor do mundo como a princesa de um verdadeiro conto de fadas; noivou aos 19 anos, casou-se aos 20 (em cerimônia televisionada para 74 países) e se tornou mãe de William e Harry na sequência. Em paralelo, a sua dedicação singular a causas marginalizadas, como a AIDS, transformaram-na em um expoente de grande valor humano para a nação. Diana era, de fato, amada pelo povo.
Mas o final feliz não podia estar mais longe da realidade: a princesa havia desenvolvido um transtorno alimentar grave ainda quando estava noiva de Charles. Ele, por sua vez, era infiel desde antes do casamento, e a família real esperava de Diana a resignação; que ela mantivesse as aparências pelo bem da monarquia, mesmo quando o comportamento do marido fosse insustentável. O conflito estava instaurado e, para agravá-lo, a crescente popularidade de Diana roubava a cena do restante da família, incluindo os membros que, outrora, costumavam ser os únicos protagonistas.
Depois do divórcio de Charles, Diana perdeu o título de Sua Alteza Real e o direito à proteção policial, algo que jamais poderia ter sido negado a ela, tamanha a sua fama e o consequente assédio. Sendo alvo fixo de paparazzi, Diana seria caçada onde quer que fosse (imagine sem escolta oficial), e o fim da história se traduz em uma tragédia que poderia ter sido evitada.
Além da quarta temporada de The Crown, série aclamada, e dos inúmeros documentários sobre a vida da princesa (como Lady Di: Suas Últimas Palavras), dois filmes que vale a pena conferir: Spencer retrata com ares de terror psicológico o que a princesa pode ter vivenciado no seu isolamento em meio à família do marido, e o premiado A Rainha (com Helen Mirren) ilustra a imensa comoção dos primeiros dias após a sua morte, incluindo a pressão popular e governamental para que ela recebesse um funeral público.
E é sobre o funeral de Diana que Canção do Cisne traz revelações especialmente polêmicas, capazes de prejudicar a imagem do atual rei na Inglaterra, mesmo hoje, quase 30 anos depois. Por exemplo, segundo Spencer, o príncipe Charles fez questão de andar atrás do caixão no cortejo fúnebre, mas também determinou que os filhos William (na época, com 15 anos) e Harry (com 12) estivessem junto, e o motivo não seria nada nobre: fazer deles um escudo moral, pois havia grandes chances de ser vaiado; tendo os filhos ao seu lado, garantia maior civilidade das multidões.
A recepção midiática de Canção do Cisne, por sua vez, tem sido influenciada por favoritismos. Tanto o endosso quanto a rejeição à obra dificilmente estão isentos de lobby, já que a novela da família real se resume a uma guerra de narrativas milimetricamente calculadas por verdadeiros times de relações públicas, e a sua operação inclui a cobertura de formadores de opinião.
De um lado, os apoiadores da monarquia exaltam a memória da falecida rainha Elizabeth II e defendem Charles III, buscando preservar a instituição como um bem maior. Do outro, fãs de Diana, republicanos e desafetos monárquicos reiteram a conduta irresponsável da família real com a princesa ao longo dos anos, destacando a campanha orquestrada pelo Palácio para tentar diminuir a sua relevância.
No meio termo, monarquistas que a amavam se encontram diante de um impasse: enquanto a morte de Diana já tem quase três décadas, o futuro do trono britânico está cada vez mais próximo de seu filho William, e não faria sentido massacrar a instituição agora.
Assim, Canção do Cisne já é um enorme sucesso editorial e marca presença na lista dos mais vendidos logo depois de ter sido lançado globalmente em 12 idiomas (editora Objetiva no Brasil). E poderia ser diferente? Livros sobre escândalos da monarquia costumam vender bem e retroalimentar enredos da mesma novela. Muita gente gosta, sobretudo, da novela em si. Amor e decepção, sucesso e inveja, brigas e alianças… Tudo no meio de uma parentada. No fim das contas, é como afirma Camilla Tominey, editora associada do The Telegraph: as histórias sobre a família real fascinam porque, apesar de envolverem príncipes, são as histórias de meio mundo.



Deixe um comentário