Por décadas a fio, o mundo observou a rainha Elizabeth II redefinir a relevância de uma monarquia constitucional parlamentar, mesmo em tempos bastante voláteis.
Foram 70 anos de um reinado que viu de tudo: descolonização, guerra fria e corrida espacial, mas também um furacão chamado Diana, a grande revolução tecnológica e o Brexit. Como sobreviveu a tantas mudanças? Com pragmatismo e objetividade, a monarca atravessou crises políticas e escândalos familiares de modo a entender o papel que uma rainha do seu tempo deveria ter na vida de um povo. Transformou-se nesta rainha.
Quando nasceu, Elizabeth talvez já estivesse predestinada a ser rainha da Inglaterra, mas não era a herdeira direta, muito menos provável. Recapitule: quando o seu tio Edward herdou o trono, em 1936, ele decidiu abdicar antes mesmo da coroação. O motivo? “Achei impossível carregar o pesado fardo de responsabilidade e cumprir meus deveres como rei, como gostaria de fazer, sem a ajuda e o apoio da mulher que amo.” E a mulher que ele amava era Wallis Simpson (americana, plebeia e divorciada).
Na época, a Igreja Anglicana não permitia o casamento de pessoas divorciadas, e este não era o único empecilho, já que o primeiro-ministro era veementemente contra a união. Para evitar uma crise democrática, abriu mão de ser rei e ficou com Wallis (uma história à parte). No lugar de Edward, quem assumiu o trono foi George, o segundo na linha de sucessão, que vinha a ser o pai de Elizabeth. Ele reinaria por 15 anos.
Na ocasião da morte de seu pai, Elizabeth ascendeu ao trono, tornando-se a segunda de seu nome, e um nome que ela não divide com qualquer pessoa na História; afinal, a primeira Elizabeth foi a emblemática Rainha Virgem, que reinou por 44 anos, de 1558 até a sua morte. Ambas longevas em seus contextos, as duas rainhas se revelaram nada menos do que âncoras de estabilidade nacional.
Fosse diante dos implacáveis tabloides ou das redes sociais, Elizabeth II se manteve constante até o fim. Com os seus terninhos coloridos e a inseparável bolsinha, marcou presença simpática em inúmeros eventos, mesmo quando estava bastante idosa, chegando a alcançar o seu jubileu de platina em 2022. Para os brasileiros que acompanham as fofocas da realeza, ela já tinha até um apelido carinhoso: Betinha.
Só que, apesar dos esforços para manter a narrativa nas rédeas, o enredo íntimo da família real moderna sempre foi complexo, e bem mais do que Elizabeth II teria antevisto quando foi coroada. Nem precisamos citar a vida cheia de escândalos de Margaret, sua irmã; basta falarmos sobre um capítulo em especial: o casamento do seu primogênito, Charles, com Diana Spencer, estando apaixonado por outra mulher (casada). Isso nem importava tanto na época, porque… Qual rei nunca teve uma amante? Se rainhas cruzaram a idade média até aqui sem chiar, por que haveria de ser Diana a mulher que reclamaria de alguma coisa? E ela não só reclamou como virou uma estrela global, capaz de ofuscar o restante da família (outro problemão nos bastidores).
Para encurtar a história, foram anos de traições e ressentimento até que o casamento finalmente acabou. Primeiro, em 1992, o príncipe e a princesa de Gales se separaram informalmente. Em entrevista sem precedentes à BBC, Lady Di chegou a expor a infidelidade do ex-marido ao público, e o divórcio foi oficializado em 1996. O fim da história todos conhecem: Diana, que já não contava mais com segurança policial no seu dia a dia, sofreu um acidente de carro fatal ao fugir de fotógrafos em Paris. Ela tinha 36 anos.
A gigantesca comoção causada por sua morte precoce, então, registrou que a princesa do povo jamais sairia da memória do mundo, a exemplo de todos os ídolos que partiram cedo.
Sete anos depois da morte de Lady Di, Charles se casou com Camilla, sua amante de longa data. E foram coroados rei e rainha consorte em 2023. Um amor duradouro, reconheçamos, impedido por regras e convenções que estavam há muito datadas.
Em paralelo, o casamento de outro filho da monarca, o príncipe Andrew, não ia nada bem. Separou-se de Sarah Ferguson em 1992, para desgosto dos pais. Mal sabia a rainha que, décadas depois, o mesmo filho seria exposto em um dos maiores escândalos da atualidade: o caso Epstein. As coisas ficaram tão feias que Andrew foi aposentado da família real e teve os títulos de príncipe e de duque de York removidos.
Também em 1992, a vida pessoal de Anne, única filha mulher de Elizabeth II, ganhou espaço nos jornais por causa do seu divórcio (com rumores de traição por parte do marido). No mesmo ano, ela se casou novamente. E um parênteses: a princesa real sempre deu show no quesito trabalho, envolvida com instituições de caridade, regimentos e organizações que costumam render uma infinidade de compromissos anuais, tudo em nome da coroa, reiterando uma imagem íntegra diante do país.
A união de Elizabeth com o marido, o príncipe Philip, por sua vez, durou até que a morte os separasse; foram mais de 73 anos de parceria, mesmo com todos os altos e baixos ao longo do caminho.
Mas, veja bem, os casamentos da família real são muito mais do que fofoca de coluna social… Para a linha de sucessão, o matrimônio serve como um ato de Estado, algo que renova a estabilidade de uma dinastia. Prova disso é a cerimônia de casamento do príncipe William e Kate Middleton (agora conhecida como Catherine, a princesa de Gales), que foi transmitida para mais de 180 países.
Foram cerca de nove anos de namoro, tempos em que Catherine foi testada à exaustão, com algumas idas, vindas e muitos rumores midiáticos. E a sua discrição ganhou a corrida. Com três filhos, o casal não apenas se consolidou como a promessa de um futuro sólido para a coroa como mantém a popularidade em alta.
Dava para dizer que a Casa de Windsor tinha alcançado certa calmaria, pelo menos na esfera das aparências, não fosse por certa briga entre irmãos que se agravou do ano de 2018 em diante… Mas isso é assunto para outro post.
Discreta e inabalável, Catherine vem a ser uma das maiores forças da família real em 2026, senão a maior de todas. Há dois anos, a princesa de Gales se aproximou de uma maneira muito humana da população quando revelou estar fazendo um tratamento quimioterápico. E, a cada concerto de Natal do qual é anfitriã, o povo segue renovando a confiança nela; uma figura pública que compreende (assim como Elizabeth II compreendia) o papel de rainhas e princesas modernas.
Agora, com tantas presepadas ao longo dos anos e um senso de dever que, muitas vezes, ofusca o bom senso, dá para questionar se faz sentido haver uma família real. Qual a necessidade de chefes de estado meramente simbólicos, ungidos por uma sucessão hereditária que está sujeita a todo tipo de temperamento?
Em pesquisa recente, 27% da população manifestou preferir uma república, mas 55% segue a favor do regime atual. Há o retorno financeiro, claro, com o turismo, os selos de aprovação real que elevam as exportações e todo o lucro das propriedades da coroa. Fora isso, a identidade nacional, que pesa na balança mesmo que a monarquia tenha custos para o contribuinte. Em outras palavras, ame ou odeie, a família real é uma parte importantíssima da cultura do Reino Unido, e sempre renderá assunto.




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